Reminiscências 8 meses atrás

NO TEMPO DO FUTEBOL NO CAMPO DO NASSER

(…) Tudo era muito descontraído, antes, durante e depois das “peladas”. Desde as gozações aceitas por todos sem restrições – algumas até desonrosas -, até os memoráveis jogos de dominó. A propósito, nunca entendi a razão do jogador de dominó bater as frágeis pedrinhas com tanta força na mesa…

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Eu comecei a frequentar o “campo do Nasser” nos anos 1980. O sítio pertencia aos sócios da empresa Sigma: José Nasser, Jorge Elias, Raymar Aguiar e Acácio. Localizava-se no início da Rua José Romão, artéria que fica á esquerda da Alameda Cosme Ferreira, a poucos metros do SESI – Clube do Trabalhador. Quem me levou para aquela confraria foi Sergio Elias, meu cunhado, “tão fominha de bola” quanto eu. As prioridades na escolha dos jogadores que comporiam os primeiros times a se enfrentar eram: antiguidade e ordem de chegada. Esse registro era feito em um caderno ou folha de papel. Evidentemente, nos primeiros meses, novato que eu era, mesmo que chegasse cedo, tinha que aceitar aquela tácita regra. Os jogos tinham a duração de 20 minutos, terminariam antes se um dos times convertesse dois gols. Em caso de empate, a sorte era tirada no “cara ou coroa”. As dimensões do campo de areia branca e traves com redes permitiam nove jogadores para cada time. Atrás do gol mais próximo ao portão de entrada do local, ficavam os chuveiros. Os pés corriam descalços, mas havia três jogos de camisas diferentes, essas distribuídas entre os jogadores dos três primeiros times. Depois disso, o jeito era encarar a camisa suada de um time perdedor.

Tudo era muito descontraído, antes, durante e depois das “peladas”. Desde as gozações aceitas por todos sem restrições – algumas até desonrosas -, até os memoráveis jogos de dominó. A propósito, nunca entendi a razão do jogador de dominó bater as frágeis pedrinhas com tanta força na mesa. Cheguei a pensar que poderia ser uma válvula de escape para problemas financeiros, pessoais, sexuais ou conjugais, mas logo percebi que não chegaria a diagnóstico algum, é mesmo um típico caso de leseira Baré. Quando um jogador dava o passe geral – correspondente a um bônus de 50 pontos – ao invés de anunciar os pontos conquistados, gritava a plenos pulmões: “galo!”; outras vezes, também em alto tom: “aquele bicho que come galinha!”. Quando um jogador, em uma rodada, tirava três ou quatro carroças, raro a vez que não externava a sua “infelicidade” sempre com a mesma frase: “sou eu e o Felipe geleira”. Esse, um sujeito que ganhava a vida nas ruas de Manaus, a “pilotar” uma carroça puxada por um jegue.  Os “perus”, expectadores que ficavam em volta da mesa, alucinados por chegar a sua vez de entrar no jogo, testemunhavam as boas e as más jogadas. Se a segunda opção prevalecesse, eles não se continham e, em uníssono, alteravam a letra do sucesso musical cubano, Guantanamera. Assim, o verso “Guantanamera, guajira guantanamera”, passava a ser “Anta na mesa, tem uma anta na mesa”.

Muitos tinham apelidos: o Nasser era turco; Luiz César Fernandes, Lula; Jorge Elias, Juruna; Acácio, japonês; Tabajara Ferreira, tracajara; Franklin Cordeiro, bolo; Renato Fradera, pato; o outro Renato, balada; Fernando, buchacho – esse um goleiraço -; o Manoel Alexandre era picão – suponho que o apelido decorresse do cargo de destaque que ocupava no estado -; Antônio Crediee, Serra Pelada – ele ia para o “campo do Nasser” com o pescoço adornado por grossos cordões de ouro -; João, pombo; Ozias Santiago, carga pesada – seus movimentos de braços quando corria, pareciam que estavam a dirigir um caminhão -;  Sergio Litaiff, Serjão;  o meu era Gatica, por conta do cantor chileno Lucho Gatica; Nelinho era o apelido de um amigo de atitudes cordiais, um caso estranho, pois ele não tinha a aparência, a potencia no chute, nem o futebol do famoso lateral direito do Cruzeiro. Quanto ao seu prenome, acho que nem ele lembra. Bem, ficarei por aqui, a lista é terminável, porém enorme.

Sergio Elias, Renato “pato”, Renato “balada”, Cledison e Heraldo Beleza tratavam a bola Mikasa com muita intimidade, outros eram esforçados, outros não passavam de brincantes. O Lula, por exemplo, eu comparo ao zagueiro Réver, do Flamengo, alto, elegante, cheio de boa vontade, mas sempre a chegar atrasado quando enfrenta lépidos atacantes. Nasser era comprometido e combativo; Nelinho e Edson Oliveira, empenhados. Já o Tabajara… Esse não perdia a viagem, se não alcançasse a bola o adversário jamais passaria adiante. Era um camarada cordial, entretanto, quando jogava futebol, as escleras dos seus olhos ruborizavam.

Por doze ou mais anos frequentei o “campo do Nasser”, inclusive quando mudou de endereço. Nesse período testemunhei muitas histórias e estórias, casos e causos que renderam incontroláveis gargalhadas.

As pedras de dominó já gemiam de dor quando o Antônio Crediee chegou, com o seu habitual sorriso nos lábios, a camisa em uma das mãos e o pescoço a exibir seus grossos cordões de ouro. Ozias ao vê-lo e com o propósito único de dar-lhe as boas vindas anunciou para que todos ouvissem: “Fala, C P!”. Fez-se um silencio de campo-santo, todos os vivos entreolharam-se a querer entender o que aquelas duas letras poderiam significar. Edson, que além de notável operador do Direito era notório conhecedor da língua portuguesa, se antecipou: “Ozias, meu querido, Serra (Pelada) é com S, não com C”. Nessa hora, por mais que não o seja, o adjetivo “querido” cala como pejorativo. Aturdido e abrumado com a gafe e a gozação que adviria, o sempre cortês Ozias tentou consertar, foi pior: “Égua, bicho, com C porque é em espanhol, Cierra Pelada”. Ploft! Escreveria o conceituado colunista social Gilberto Barbosa, o Gil. Ora, independente da forma como é escrita, serra é com S em espanhol, italiano, francês, galego, africâner, albanês, catalão, dinamarquês, alemão, inglês esperanto et caterva. Depois daquele dia, Ozias só retornou ao “campo do Nasser” quatro anos depois.

Quando o “campo do Nasser” passou para a Rua 11, atual Rua José Lourenço de Aguiar, no bairro Alvorada, houve um dia em que o saudoso Jorge Elias, que só aparecia no fim da tarde para o tradicional carteado, estacionou seu carro, saltou, olhou, deu meia volta, acionou o carro, se mandou e não voltou. Só na semana seguinte soubemos o porquê daquela atitude. Ele havia chegado de uma viagem a Escandinávia no dia anterior, caiu na besteira de comparar a beleza da raça nórdica com a beleza da “raça” que frequentava o “campo do Nasser”, não gostou do resultado e voltou para casa. Há quem diga que ele tenha passado três dias para se conformar. O Juruna era um ser humano porreta.   

Quando o Pedro Russo chegava do Rio de Janeiro, cidade onde mora, havia um ritual infalível: ele chamava o João “pombo”, juntava sua cabeça a dele, punha suas mãos sobre as asas do pombo, as asas do pombo sobre os seus ombros e começava a girar para a direita e para a esquerda, ambos a emitir um som que em nada lembrava o arrulhar dos pombos. Dizia o Pedro que com aquele procedimento ritualístico ele transmitiria um pouco de sua “massa” para o pombo. Crédulo, o pombo apostava que sim.

Outra vez o amigo Adalberto Martins, “fominha” e bom jogador, pisou no acelerador desde a cidade de Presidente Figueiredo para chegar a tempo de jogar algumas partidas. Não quis perder tempo e levou consigo o professor Orígenes Martins, seu pai. Na confraria que não poupava ninguém de apelido ou gozação, o Adalberto era o tubarão (do ensino), rótulo dado a todos os empresários do ramo da Educação. Ruy Lapa, que estava a atuar como árbitro, quando os viu, gritou: “Chegou o tubarão, hoje ele trouxe orca, a baleia assassina!”. Era previsível que o tempo fechasse. O Lapa tinha dessas lapadas, mas era um sujeito de bom coração.

Por lá passaram tantos visitantes, músicos e jogadores de bola, dominó e pife-pafe, que não há como não esquecer alguns. Com o perdão dos esquecidos, segue a lista dos que a memória ainda me privilegia: os irmãos Alfredo, Evilásio e Messias Nascimento, mais conhecido como guarda-roupa de motel; o ótimo goleiro Maurício Lapa; os também irmãos Ronaldo, Robson e Rubinho Tiradendes; Chiquilito Erse; Serafim Corrêa; Beto Gióia; os irmãos Luís, Etevaldo e Zé Américo Leão, o popular Zé Careca; Paulo Russo; o pernambucano Genival; Marreca – esses dois últimos craques de bola -; Estevão Pedrosa, o cupim, grande goleiro; José Francisco Aleixo, o gala rala; o também goleiro Dinilson; Muni Lourenço; Hamilton Rice Cordeiro; Cordeirinho; Jorge Conceição; Luiz Américo, o Junior; Marcelo Lima; Zeca Reston; Porfírio Lemos; os irmãos Paulo e Carlos,  conhecidos como peruca e peruquinha, grandes percursionistas; o amigo Rômulo Nunes; Fares Abnader; Luís Carlos Siqueira; Zé Raimundo, o judico e José Laredo. Laredo era o “boleiro” que sempre chegava atrasado. Para conseguir  vaga no primeiro jogo, fazia oferta tentadora ao que estivesse disposto a vende-la. É claro que alguns se atracaram naquele dinheiro extra, as razões a ninguém interessa.

De lá para cá, naturalmente, muita coisa mudou, muitos, prematuramente, o “Mestre já convocou” – expressão comumente usada na confraria -, mas há uma frase, lá muitas vezes ditas, que eu nunca esqueci, pois apesar dos anos não mudou e, parece, ainda está longe de deixar de ser atual: “Não existe obra pública redonda, todas têm “ponta””.  

Confesso que vivi dias felizes no convívio com aquela turma de excelência.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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