Reminiscências 3 meses atrás

PODE ISSO, ARNALDO?

Na primeira metade dos anos 1960, a Rua José Clemente, via onde me criei, retratava exatamente o que ocorria com a juventude brasileira e as músicas que tocavam nas rádios do Brasil. Do lado esquerdo, desde a calçada da casa do amigo Arnaldo Russo, só dava Beatles, e haja Love me Do, I Want Hold Your Hand, She Loves You, Help… Arnaldo foi o primeiro Beatlemaníaco que eu conheci. Bossa nova e yê-yê-yê não tocavam na sua rádio vitrola portátil Belair nem se Jesus Cristo pedisse. Ops! Só uma vez…

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Na primeira metade dos anos 1960, a Rua José Clemente, via onde me criei, era o retrato do que ocorria com a juventude brasileira e a influência que as músicas que tocavam nas rádios exerciam sobre aquela geração.

Do lado direito os sons das músicas de Roberto Carlos e da turma da Jovem Guarda invadiam a minha casa. Vinham da eletrola dos irmãos cariocas, Valinda, João e Telê. Uma overdose de Banho de Lua (Celly Campello); Um Leão Está Solto nas Ruas, Splish Splash, Parei na Contramão, O Calhambeque… (Roberto Carlos); O Passo do Elefantinho (Trio Esperança); Beijo Gelado (José Augusto);  Ai de Mim (Golden Boys) e muitas outras mais. De vez em quando a regra era quebrada, penso que por seus pais, e eu conseguia ouvir Presidente Bossa Nova, Dona Maria Tereza e Caixinha, Obrigado (Juca Chaves), também Miltinho a cantar Mulata Assanhada.

Do lado esquerdo, desde a calçada da casa do amigo Arnaldo Russo, só dava Beatles, e haja Love me Do, I Want Hold Your Hand, She Loves You, Help… Arnaldo foi o primeiro Beatlemaníaco que eu conheci. Bossa nova e yê-yê-yê não tocavam na sua rádio vitrola portátil Belair nem se Jesus Cristo pedisse. Ops! Só uma vez.

Ele estava a ouvir os Beatles, em volume com decibéis suficiente para compartilhar com a vizinhança, como sempre o fazia todas as tardes. Em determinado instante Arnaldo reduziu o volume para um momento, digamos que mais intimista. Foi nessa hora que eu passei em frente à sua casa, caminho obrigatório de quem estava a retornar da habitual “pelada” jogada no campo do estádio General Osório. Ele estava a ouvir É Proibido Fumar, sucesso de Roberto Carlos, e a bater ritmicamente os pés no chão. Emudecer o som da eletrola foi o expediente por ele usado para disfarçar o flagrante. Discreto, também disfarcei que eu não ouvira o que ouvira. Guardei o segredo a sete chaves, nunca comentaria tamanho mico, ele não me perdoaria. Passados 54 anos, tempo suficiente para um assunto de tamanha gravidade caducar, agora o revelei.

No início da década de 1960, Roberto Carlos iniciava a sua carreira sob a influência do samba-canção e da bossa nova, mas imediatamente mudou seu repertório para o rock e estourou no Brasil, a cantar versões de sucessos daquele novíssimo gênero musical e suas próprias composições, muitas delas em parceria com Erasmo Carlos. Surgia a Jovem Guarda, nome dado ao primeiro movimento musical do rock brasileiro, oriundo de um programa na TV Record com o mesmo nome, estrelado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa.

O fenômeno Roberto Carlos chegou por essas plagas, quer pelas musicas tocadas nas rádios, quer porque os jovens amazonenses mais abastados, quando das férias cariocas regressavam, comentavam sobre o programa da TV Record.

A primeira vinda do “Rei” deu-se somente no ano de 1964, em uma passagem meteórica. Roberto aportou no aeroporto de Ajuricaba, mais conhecido como Ponta Pelada, hoje aeroporto do Comando Aéreo Regional -VII Comar. Aqui fez duas apresentações no mesmo dia, uma no Cheik Clube e outra na Boate Las Vegas. Até havia a expectativa de ele se apresentar no Madureira Clube e no cine Politheama, mas não vingou. Coube ao conjunto musical Armandinho e seus Big Boys, fazerem o pré-show no Cheik Clube. Naquela oportunidade o rei da Jovem Guarda tinha como carro chefe as músicas “Splish Splash” e “Parei na contramão”, lançadas no ano anterior; além de “É Proibido Fumar” e “O Calhambeque”, lançados em 1964. Foi um tremendo sucesso, daqueles com gosto de quero mais.

Em 1965, Roberto Carlos lançou os álbuns “Roberto Carlos Canta Para A Juventude”, que trouxe os sucessos “História de Um Homem Mau”, “Os Sete Cabeludos” e “Não Quero Ver Você Triste”, todas em parceria com Erasmo Carlos. Depois veio o álbum “Jovem Guarda”, a trazer os sucessos “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, “Lobo Mau”, “O Feio” e “Não é Papo Pra Mim”. A juventude baré não via a hora de tê-lo por aqui novamente.

Não deu outra. Em 1966, por um dia, Manaus viveu novamente o ritmo alucinante de yê-yê-yê. Sua chegada oficial em Manaus ocorreu no dia 1 de setembro de 1966, mas corria a boca pequena ele teria chegado dois dias antes e se hospedado em um balneário local. No dia 1º, embarcou num “teco-teco” no bairro Flores e desembarcou triunfante no aeroporto de Ajuricaba. O desembarque foi uma repetição das cenas que se tornaram comum em todas as partes por onde o ídolo passava. Milhares de moças e rapazes, a utilizar todos os meios de transporte, especialmente lambreta, desde cedo foram em direção ao aeroporto. O desembarque foi uma grande confusão, pessoas foram pisoteadas, moças histéricas a querer toca-lo e alguns grupelhos a cantar suas músicas de sucesso. Os shows ocorreram no tablado do novo Circo Americano e no Cheik Clube. Foram duas apresentações apoteóticas. No dia 2 ele regressou para o Rio de Janeiro.

Naquela sua passagem por Manaus, RC veio por um contrato financeiro espetacular, fartamente noticiado por jornais locais. Por conta ou não disso, reza uma lenda urbana que antes de entrar para fazer o primeiro show, ele teria tirado alguns minutos para contar a “bufunfa”. À medida que terminava de conferir cada “bolo”, ele punha as ligas em seu pulso e iniciava a contagem do próximo, até preencher quase que por completo o seu antebraço. Muitas pessoas teriam testemunhado o episódio. Arnaldo Russo contou-me que fora “obrigado” pelo pai a ir àquele show com o seu irmão, Domingos Russo. Ele jurou ter sido uma das testemunhas “por esses olhos que a terra há de comer”.

A informação viralizou, no dia seguinte os estoques de elástico de borracha natural da cidade se esgotaram, só se via neguinho com o pulso até o “tucupi” de ligas. Recentemente resolvi perguntar-lhe se aquela estória era verídica, ele voltou a confirmar, dessa vez a dizer que queria “morrer de parto se não era verdade”. Pode isso, Arnaldo?

Roberto era tão influente, que no programa de comemoração da Semana da criança, organizado pelo governo do estado, houve o concurso de higidez infantil, no qual 70 crianças foram inscritas nos lactários da Secretaria de Saúde. Lá receberam assistência orientada dentro dos preceitos de higiene. A criança que tirou o primeiro lugar no concurso se chamava Roberto Carlos Carvalho.

Em fevereiro de 1968, o jornalista Bianor Garcia anunciou e Fernando Colyer publicou que RC viria a Manaus exclusivamente adquirir instrumentos musicais importados para o seu conjunto. Colyer aproveitou o furo e fez propaganda da Especialista, a informar que lá o rei ficaria de boca aberta com os instrumentos elétricos: “É cada guitarra que eu vou te contar”, finalizou o colunista.

O colunista social, Nogar, anunciou que Elisabete Santos, miss Renascença Clube, viria para um show nos salões do Ideal Clube e se hospedaria no hotel Amazonas. A aproveitar a onda das gírias lançadas pelo rei do yê-yê-yê, lascou que, segundo a opinião de Roberto Carlos, o hotel era uma “barra limpa”.

Na virada para década de 1970, RC se tornou um cantor e compositor basicamente romântico, gênero que conserva até hoje. Ele é o artista solo com mais álbuns vendidos na história da música popular brasileira, dados da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos).

O Arnaldo sabe disso tudo, ele tem toda a discografia do cara, mas continua a negar que seja seu fã de carteirinha. Sempre que o tema vem à baila, ele desconversa, dá de ombro e põe-se a cantar um trecho da música de Lennon, seu Beatle preferido: […] You may say I’m a dreamer But I’m not the only one I hope some day You’ll join us And the world will be as one […].

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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