Reminiscências 4 meses atrás

A ADORÁVEL CARMEM DOIDA

(…) Vera Lúcia Cordeiro, que teve que correr e se esconder no balcão de uma loja da Av. Eduardo Ribeiro para não pagar o pato por alguém tê-la chamado de doida, mais que uma geração de manauaras dela se lembra. Tantos dela correram; incontáveis com ela mexeram e uns tantos receberam lapadas do seu inseparável saco de estopa.

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(*) Republicação

“Sua zolhuda, ladrona de galinha!”. Esses foram os “elogios” que a minha mãe recebeu por estar debruçada na janela de casa quando por ela a Carmem passou.

Carmem nunca pagou ônibus, entrava pela porta da frente no tempo que a catraca era nos fundos. Carregava um saco de estopa, era alta para os padrões tupiniquins, esguia, olhos miúdos e pele morena, usava os cabelos bem curtinhos e trajava vestido.

Certa vez um cobrador de ônibus, a sacudir a mão recheada de moedas, com ela brincou: “Carmem, tu ainda não pagaste a passagem!”. Emburrada, retrucou que sim e se recolheu. Poucos minutos depois veio o troco. O ônibus percorria o bairro da Cachoeirinha quando de repente ela avistou, numa poça de lama, dona porca e seus porquinhos. Olhou para o cobrador, apontou para a família suína e disse: “Ei, maninho, Lá está tua mãe!”. Era doida, pero no mucho.

Tal qual a Vera Lúcia Cordeiro, que teve que correr e se esconder no balcão de uma loja da Av. Eduardo Ribeiro para não pagar o pato por alguém tê-la chamado de doida, mais que uma geração de manauaras dela se lembra. Tantos dela correram; incontáveis com ela mexeram e uns tantos receberam lapadas do seu inseparável saco de estopa.

Os Cordeiro protagonizaram um segundo episódio inesquecível: estava o patriarca a mirar os paralelepípedos da Rua Lobo d’Almada quando, inesperadamente, levou uma lapada de saco daquelas de tirar o couro. A ter a porta da casa da família escancarada, como se fosse a Marquês de Sapucaí em dia de Carnaval, Carmem não contou conversa, desfilou corredor adentro a botar a família em polvorosa. Seo Zé teve que impor sua autoridade antes que ela alcançasse a praça da apoteose da Maison dos Cordeiro. 

 

Aos que não mexiam com ela, mas atrapalhavam a sua passagem, dizia: “sai da frente, piolho!”. Abstraindo-se umas e outras lapadas de saco de estopa e até de guarda-chuvas que ela distribuía, Carmem era bem normal. Criada desde os três anos de idade por uma família de bem, de nada precisava, tinha tudo ao seu dispor. Passava o dia na rua, mas dormia em casa e chegava, invariavelmente, entre seis e sete horas da noite. Relatos afirmam que no dia do seu aniversário ia até as rádios pedir que colocassem músicas para ela e, dos conhecidos, cobrava presentes.

Carmem perambulava pela cidade porque os médicos recomendavam que não a recolhessem, tinha lá desequilíbrio, mas não era agressiva. Sim, internou-se algumas vezes, mas em liberdade tudo o que ganhava juntava e guardava no inseparável saco de estopa, depois o levava ao então Hospício, hoje Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, e distribuía entre os “hospedes” daquele sítio de atenção à saúde mental, hábito adquirido desde a primeira vez em que lá se internou.   

Indiferente aos olhos passantes deixava o saco no chão e dançava sozinha. Se nesse momento alguém a chamasse pelo odiado apelido, prontamente respondia: “É a tua mãe filha da putinha”, e voltava a dançar.

Era invocada com troca de carinhos e ósculos entre namorados, fazia gestos obscenos e gritava: “Tapa, tapa logo!”. Contudo, Carmem fazia carretos e até faxinas. Seu maior prazer era passear de ônibus sem pagar, depois, eu suponho, era correr atrás de quem a chamasse de doida.

Em 1974 Carmem cumprindo a rotina dos normais, foi até a Estação de ônibus e entrou pela porta da frente. Um guarda doido a empurrou para fora, ela caiu e bateu a cabeça e o joelho. Chegou a casa e nada contou, a dor no joelho tornou-se insuportável, quando foi medicada não havia mais hipótese, Carmem ficou paralítica.  Dona Zizi, filha da senhora que a criou, dela cuidou. Àquela altura, doente, Carmem a chamava de mãe.

Próximo ao natal de 1977, ela recebeu a reportagem do jornal A Critica na casa em que morava na Rua Frei José dos Inocentes, nas imediações da então sede da Prefeitura municipal, no centro da cidade, e assim se comportou:

– Eu vou sair no jornal, é? Minha cara vai aparecer?

– Vai sim, é só você concordar…

Lamentou que não pudesse mais andar, reclamou que ninguém a visitava e disse que queria ganhar de Papai Noel um lápis preto e vermelho com borracha e dois cadernos. A reportagem foi publicada no dia 21 de novembro de 1977 e dela me socorri para subsidiar esta reminiscência.

Carmem dos Anjos nasceu no Cacau Pirera, distrito do município de Iranduba, Amazonas, em 18 de abril de 1918.

Por ela nutri quatro sentimentos distintos: medo, pena, respeito e inveja. Medo quando em tenra idade algumas corridas dela eu tive que dar; pena quando pude perceber seus cabelos prateados, o corpo debilitado e sua mansidão; respeito pelo mundo particular que vivia; inveja porque tantas vezes reprimi minha vontade de botar gente para correr, de chamar uns e outros de zolhudo e ladrão de galinha; de invadir a seara alheia e desfilar o meu bloco; de chamar de piolho uns chatos que encontrei pelo caminho e – por que não? – de filha da putinha uns poucos.

Nasceu dos Anjos, o anjo que está a morar com os anjos. Carmem – que chamávamos doida – tinha como hábito ajudar o próximo. E nós, ditos normais, também o fazemos?

Se viva estivesse, Carmem bem poderia responder: duvido muito, seus piolhos!

(*) O texto primitivo desta Reminiscência foi publicado no Facebook de Lúcio Bezerra de Menezes, no dia 29 de outubro de 2013.

(*) Esta republicação atende a diversos pedidos.

(*) O texto sofreu pequenas correções.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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