Crônica 4 meses atrás

AMAZÔNIA, A TERRA DOS GRANDES TERREMOTOS BRASILEIROS

Quem mora em Manaus lembra que, por aqui, de quando em vez a terra treme, nem sempre perceptível, é verdade, mas que treme, treme.

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Quem mora em Manaus lembra que, por aqui, de quando em vez a terra treme, nem sempre perceptível, é verdade, mas que treme, treme. Dos tremores que ocorreram nos últimos 55 anos, alguns eu me lembro claramente, outros nem tanto.
O primeiro terremoto ocorreu no século XVII, foi devastador e está relatado no diário de Samuel Fritz (1654-1725), missionário jesuíta que esteve em missão de catequese indígena na Amazônia por 40 anos: “… no anno passado de 1690, pelo mez de junho ocorreu um grandessíssimo terremoto (…): penhascos caïdos, arvores grossissimas derraigadas e lançadas ao rio; terras muito altas desmoronadas (…) no meio de pedras e arvores amontoadas sobre as margens; por toda parte lagoas abertas, bosques destruídos e tudo sem ordem misturado (…). Continuavam as ruínas por quatro léguas de rio; terra a dentro tinha sido maior o estrago”.
As ondas que se formaram no caudaloso rio Amazonas foram tão fortes e volumosas, que alteraram o sentido da corrente do rio Urubu, seu afluente. Foi um tsunami de pequena proporção que inundou aldeias indígenas. Por ser uma região praticamente desabitada, não causou danos materiais, mortes ou feridos.
A imensa área destruída e relatada pelo religioso, se localizava na margem esquerda do rio Amazonas, provavelmente entre os rios Jatuarana e rio Preto da Eva, a aproximados 45 km a jusante do então forte de São José do Rio Negro, hoje Manaus. O forte tinha sido fundado pelos portugueses em 1669, vinte e um anos antes daquele terremoto.
Com base em estudos sismológicos do pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), Alberto Veloso, o referido terremoto já pode ser considerado como o maior ocorrido no Brasil. Sua magnitude, segundo ele, foi de 7.0 na escala Richter. O estudo realizado por Veloso foi publicado em versão em inglês, na revista da Academia Brasileira de Ciências. Conforme o pesquisador, embora possa demorar centenas de anos, a região intraplaca brasileira está sujeita a sismos expressivos e poderão se repetir em qualquer região brasileira. Em entrevista ele afirma: a Amazônia é a terra dos grandes terremotos brasileiros.
Se a Amazônia é ou não a terra dos grandes terremotos brasileiros, o certo é que no século XX e XXI, várias foram as ocorrências sísmicas, umas a ter como epicentro o Amazonas, outras com os epicentros em países vizinhos. Vejamos: em 14 de dezembro de 1963, houve um abalo sísmico próximo de Manaus, cuja magnitude foi de 5.1. Seu epicentro foi na margem esquerda do rio Negro, na região do arquipélago das Anavilhanas. Aquele tremor não causou dano ou pânico, mas deixou a população convicta de sua impotência diante de um fenômeno natural tão assustador. Naquele dia, a única preocupação da minha família era se certificar que a estrutura da casa alugada na qual nós morávamos – Rua José Clemente, 268 -, havia ou não sido comprometida. Foi um alívio concluir que nada ocorrera. Pelo menos a olho nu.
Quase 20 anos depois, em 5 de agosto de 1983, nova ocorrência registrou 5,5 pontos na escala Richter, dessa vez em Codajás. O abalo ficou circunscrito, tão somente, àquele município e não foi calamitoso.
No dia 25 de setembro de 2005, um tremor de 7,5 graus ocorrido no Peru sacudiu Manaus e outros municípios do estado, por 15 segundos. A ocorrência passou despercebida por muitos, inclusive por mim. Provavelmente por ter sido em um domingo, após as 22 horas. Particularmente, esse é o dia da semana em que mais cedo eu me entrego aos sonhos ofertados por morfeu. Na manhã seguinte, os veículos de comunicação da cidade noticiaram que alguns prédios do Centro e da Ponta Negra sentiram o tremor.
Um ano depois, em setembro de 2006, reflexo de um terremoto de 6,1 graus na escala Richter ocorrido no norte da ilha de Trinidad, localizada em frente à Venezuela, se fez notar na capital amazonense. Não houve registro de qualquer dano, mas o prédio do Tribunal de Justiça do Amazonas foi evacuado pelo Corpo de Bombeiros. Era uma sexta-feira e, na ocasião, estimou-se que 3.000 pessoas estivessem no imóvel naquele instante.
Na noite de quarta-feira do dia 15 de agosto de 2007, alguns prédios das zonas Sul e Centro-Sul de Manaus sentiram o tremor de terra, reflexo do terremoto de magnitude 7,5 graus na escala Richter, que atingiu o Peru. Naquela ocorrência a Defesa Civil de Manaus chegou a ser acionada por moradores dos edifícios residenciais Maysion Vert, na Morada do Sol e Maria de Nazaré, em Adrianópolis. Desse eu lembro muito bem, pois estava no apartamento do amigo Arnaldo Russo a assistir, pela TV, mais uma rodada do campeonato brasileiro de futebol. Três coisas eu guardo daquele assustador momento: os lustres do apartamento a balançar freneticamente; a interrupção instantânea de minha provável embriaguez por vinho italiano; e, finalmente, o tempo recorde com que desci as escadas do sexto andar ao térreo daquele prédio.
No mês seguinte, no dia 29 de setembro de 2007, às 16h, horário de Manaus, houve um terremoto em Martinica, a leste do Caribe. Por dez segundos Manaus tremeu. Prédios com mais de dez andares sentiram mais fortemente, dentre esses, a sede do Tribunal Regional do Trabalho. Por aqui o tremor chegou a marcar 2 pontos na Escala Richter, mas a tempestade que caía no momento era tamanha, que a maioria da população de Manaus pensou se tratar apenas de fortes trovoadas.
Em 25 de novembro de 2014, às 21h26, horário de Eirunepé – uma hora menos que Manaus -, um terremoto de magnitude 4,6 ocorreu naquele município. Aconteceu a 566 quilômetros da superfície e epicentro a 222 km da cidade de Eirunepé. O tremor não foi sentido na capital amazonense, muito provavelmente em razão dos 1.159 quilômetros que separam os dois municípios.
Um tremor de terra foi sentido em algumas zonas de Manaus às 19h45, do dia 24 de novembro de 2015. A Faculdade Martha Falcão/DeVry, instituição localizado na Rua Natal, em Adrianópolis, liberou seus alunos. Moradores de condomínios na zona Centro-Sul desceram dos prédios após sentirem o abalo. Segundo o Corpo de Bombeiros, naquele evento, a linha telefônica 193 recebeu mais de 30 chamadas. O tremor durou alguns segundos e também foi sentido no prédio da Justiça Federal (JF-AM), na Avenida André Araújo.
O último terremoto sentido na capital amazonense data de 18 de abril de 2017. O Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UNB) destacou que o fenômeno pode ter tido relação com um terremoto ocorrido no Peru, na região de Loreto, próximo a fronteira com o Equador.
Felizmente nenhuma dessas ocorrências foi catastrófica. Mas, cá entre nós, que dá um calafrio quando se tem a informação que a Amazônia é a terra dos grandes terremotos brasileiros, ah, isso dá! Eu bem sei o desespero e o pavor que passei no décimo sexto andar de um hotel em Santiago do Chile, no dia 16 de setembro de 2015. Aquele terremoto de magnitude 8,3 matou ao menos 11 pessoas e me fez pensar duas vezes se ainda voltarei àquele belo país, apesar do salmão e da uva tinta Carmenére.
Para quem supunha que os epicentros que sacodem o Brasil se localizavam, exclusivamente, nas sedes dos três Poderes, em Brasília, agora já sabe que não. A diferença é que os abalos aqui são sísmicos, os de Brasília, cínicos.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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