Crônica 6 meses atrás

AS COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU (1958)

Trinta e dois dias depois da conquista daquela Copa do Mundo, eu completaria 2 anos de existência, ou seja, sou pentacampeão de tempo integral. Que me perdoem os mais novos, mas é ou não é um privilégio? Calma, ainda serei mais! Oxalá esse ano! Amém!

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No dia 29 de junho de 1958, em Estocolmo, capital da Suécia, o Brasil conquistava o seu primeiro título de campeão mundial de futebol. Foi lá que Pelé, com apenas 17 anos, surgiu para o mundo. Bellini por sua vez eternizou, por sugestão dos fotógrafos, o ato de erguer a taça de campeão. O feito fez do Brasil o primeiro país a vencer uma Copa do Mundo fora de seu continente. A maiúscula vitória rendeu o “milionário” prêmio de 2 mil dólares para cada jogador. Dentre algumas curiosidades, destaco a protagonizada pelo dentista da delegação brasileira, Mário Trigo, que, eufórico com a conquista do título, quebrou o protocolo, abraçou o rei Gustavo Adolfo, da Suécia, e lhe disse: “Oi, King! Tudo bem?”.
Trinta e dois dias depois da conquista daquela Copa do Mundo, eu completaria 2 anos de existência, ou seja, sou pentacampeão de tempo integral. Que me perdoem os mais novos, mas é ou não é um privilégio? Calma, ainda serei mais! Oxalá esse ano! Amém!
Ora, com menos de 2 anos de idade, obviamente para mim o grande acontecimento foi indiferente! Ademais, no Amazonas ainda não havia televisão – no Brasil foi inaugurada em 18 de setembro de 1950; transmissões entre cidades brasileiras, em agosto de 1957; por aqui, a TV Manauara, uma TV a cabo, só chegou em 1965 -, globalização, internet e o que essa trouxe de informação instantânea. Logo, impossível para o bebê que eu era poder dimensionar o que o feito representou para o povo brasileiro e, em especial, para a população manauara.
Seis anos mais tarde, semialfabetizado, eu encontrei em minha casa uma edição extra de O Cruzeiro, do mês de julho de 1958. A revista contava que, no Rio de Janeiro, então capital do país, houve chuva de papéis cortados do alto dos edifícios do bairro de Copacabana, também que trezentas lambretas com os motores a roncar, partiram do Leblon ao Leme.
Na Praça do Lido, um cidadão português, apaixonado pelo Brasil, soltou um balão com as bandeiras intercaladas do Brasil e Portugal. Nos morros, tamborins e cuícas cantaram e roncaram. Na Cinelândia, os Diários Associados armaram um palanque que contou com as presenças das misses Brasil 1957 e 1958 e da miss estado do Rio 1958. Ah, não faltaram mulatas!
O vice-presidente da República, João Goulart, ouviu o primeiro tempo do jogo em seu sítio, em Jacarepaguá, na estrada Uruçanga. Aflito com o primeiro gol consignado pelos suecos fumou à beça e roeu todas as unhas das mãos. No intervalo do jogo, quando o Brasil já havia virado o placar para 2 x 1 – o jogo terminou 5 x 2 -, ele se mandou para a Cinelândia. Antes de subir ao palanque, João Goulart abraçou todo mundo e, eufórico, disse: “Hoje o dia era nosso. Não havia quem tomasse esse campeonato. Vice mesmo só eu!” O vice-presidente era gaúcho, mas tinha seu time de preferência no Rio de Janeiro. Confesso que fiquei reticente, mas a curiosidade foi maior: no Rio Grande do Sul era torcedor do Grêmio, no Rio, Vasco.
No dia da chegada da delegação brasileira, a prefeitura do então Distrito Federal, em parceria com o comércio, promoveu um tremendo carnaval na Avenida Rio Branco, com direito a desfile de ranchos cordões, escolas de samba e carros alegóricos. O evento, evidentemente, contou com a presença dos campeões do mundo.
Em Manaus, que naquele ano contava com uma população não superior a 175 mil almas, a fuzarca aconteceu na Avenida Eduardo Ribeiro. Começou antes mesmo de o jogo terminar e se estendeu até a madrugada do dia seguinte. Os choferes das garagens situadas na dita avenida, fizeram uma longa fileira de bombas juninas bem no centro da rua, disparando-as em comemoração ao sucesso obtido pela seleção brasileira de futebol. As rádios Baré, Difusora e Rio Mar comandaram a festa. A Rádio Baré levou seus microfones para a rua e entrevistou os entusiasmados torcedores. A ousadia da rádio provocou enorme aglomeração e inevitável congestionamento na via.
Em outro ponto da cidade, no Bar Sombra, reuniram-se os membros do Clube da Madrugada, coube ao poeta Farias de Carvalho discursa sobre o heroico feito. Festejos também ocorreram nas ruas Lima Bacuri, Visconde de Porto Alegre, Av. Getúlio Vargas e Alto de Nazaré.
Nessa época eu morava na Vila Resende, no Bairro de Nossa Senhora de Aparecida – sim, eu também morei lá -, contou-me a minha mãe que, nesse dia, papai exibia um brilho no olhar diferente, o qual ela nunca soube interpretar completamente, senão como cheio de felicidade. Quatro anos depois, agora a morar na Rua José Clemente, veio o bicampeonato em Santiago do Chile – tema da próxima crônica. Eu me lembrei do que mamãe me dissera e fiquei “ligado”, a aguardar ansiosamente a chegada do papai.
Olhei fixamente para os seus olhos amarelos – que nem a camisa da seleção brasileira -, lindos, encharcados de lágrimas. Mamãe estava certa, era uma explosão de felicidade. O que ela não conseguiu traduzir é que aquela felicidade tinha um algo mais, algo que só quem ama futebol conhece e sente. Bem, aos 90 anos, mamãe, parintinense de nascimento, não vai mais se entusiasmar por futebol, entretanto, quase todos os anos, no mês de junho, seus olhos brilham de felicidade e esplendor, por boi bumbá, naturalmente, isso é Garantido.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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