Crônica 4 meses atrás

AS COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU (1962)

A conquista da seleção brasileira de futebol coincidiu com o ato inauguratório do VI Festival Folclórico do Amazonas. Ao término, houve o carnaval da vitória a comemorar a conquista do bicampeonato.

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Quatro anos depois da conquista da sua primeira Copa do Mundo, na Suécia, o Brasil sagrar-se-ia bicampeão em Santiago do Chile (1962). Eu agora estava com seis anos incompletos e deixara o bairro de Nossa Senhora Aparecida, para morar na Rua Lobo d’ Almada. Posteriormente me mudaria para a Rua José Clemente, onde morei até os dezoito anos de idade.
A Rua José Clemente foi palco de acontecimentos inolvidáveis: foi a primeira rua de Manaus a solicitar à Prefeitura a interdição de um trecho da via, delimita-la com corda de sisal e promover carnaval de rua, com direito a banda de música, segurança e o escambau a quatro. Também se notabilizaria por reunir todas as noites os “esquineiros” – Rua José Clemente esquina com a Rua Lobo d´Almada, exatamente onde funciona o Bar Caldeira -, amigos vizinhos que moravam no Quadrilátero-Estado da República dos Esquineiros da Rua (Avenida Epaminondas, Rua Dez de Julho, Avenida Eduardo Ribeiro e Rua Saldanha Marinho; o coração do quadrilátero hospedava parte das Ruas Lobo d’Almada, 24 de Maio, Joaquim Sarmento e José Clemente).
A esquina era a nossa Ágora, tudo o quanto ocorria na cidade e no país era compartilhado e debatido á exaustão, inclusive (quase sempre), futebol.
Foi a ouvir os esquineiros mais velhos que eu soube que, no Rio de Janeiro, mais de dois milhões de pessoas nas calçadas e janelas de prédios, desde o Galeão até o Palácio Guanabara, saudaram a chegada dos bicampeões. Que, no Palácio, o governador Carlos Lacerda cumpriu a promessa feita a Garrincha, antes do embarque da seleção para o Chile, e deu-lhe de presente um pássaro falante mainá (preto de bico vermelho), o qual sabia repetir as palavras Manuel e gol. O mainá era uma paixão do craque de penas tortas. Soube ainda que, das mãos de Maria Cristina, filha do governador, os demais jogadores ganharam uma água-marinha, presente do governo do estado.
Sobre Garrincha escutei que o chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, teve um trabalho danado para convencê-lo a não mandar buscar a benzedeira da sua cidade natal, Pau Grande, para tentar curar Pelé, que se machucara no segundo jogo da Copa. Também que a sua expulsão na semifinal fora a primeira de toda a sua carreira, uma patuscada do árbitro peruano Yamazagui.
A copa de 1962, diziam eles, fora marcada pela genialidade de Garrincha e pela violência dentro dos campos. O jogo entre Chile e Itália, por exemplo, acabou com dois jogadores expulsos e outros dois com fraturas.
Eles, os esquineiros, sabiam de tudo, nada lhes escapava, assim, comentaram que os chilenos diziam, antes do jogo semifinal com o Brasil, que depois de terem experimentado o queijo suíço, comido a macarronada italiana e terem bebido da vodca soviética, beberiam café de sobremesa, com Pelé ou sem Pelé. E mais, que eles espalharam vários cartazes nos ônibus de Santiago com os dizeres: “Con Didi o sin Didi, nos haremos fazer pipi”, e “Con Vavá o sin Vavá, los haremos fazer caca”. Bem, sem Pelé, machucado – substituído por Amarildo ainda no segundo jogo – e com Garrincha expulso durante o jogo semifinal, o Brasil sapecou-lhes 4 x 2.
Aquela teria sido a primeira Copa do Mundo vista pelos brasileiros a partir de fitas de videoteipes vindas de avião e exibidas nos dias posteriores aos jogos. Também foi a última a não ser transmitida ao vivo para a Europa, por ter sido realizada pouco antes do lançamento do satélite Telstar e o início das transmissões intercontinentais entre América e Europa.
Em Manaus, as notícias por eles comentadas na Ágora vinham dos jornais, como o caso do cidadão Waldemar Ferreira dos Santos, morador da Rua Jonathas Pedrosa que, eufórico com a vitória da seleção brasileira, bateu em uma mesa de tacacá e derrubou no chão os croquetes que estavam em cima da banca. Apesar de ele ter se responsabilizado pelo pagamento dos prejuízos, foi levado pelo carro da polícia civil e entregue ao comissário de plantão.
Na sessão ordinária da Câmara Municipal, em sua primeira parte da Ordem do Dia, o vereador Jair Cavalcanti apresentou requerimento a pedir que aquela Casa enviasse um telegrama de felicitações a então Confederação Brasileira dos Desportos-CBD, pela vitória alcançada na VII Copa do Mundo. O requerimento foi aprovado sem discussão na segunda parte da Ordem do Dia.
O Bariri Futebol Clube, por intermédio do presidente da confederação brasileira dos desportos, enviou a seguinte mensagem à Seleção brasileira de futebol: “É com a mais esfuziante alegria que, em nome do Bariri Futebol Clube, do bairro da Praça 14, desta cidade, dirigimo-nos a V. Senhoria a fim de que, por seu intermédio, seja transmitido a gloriosa seleção brasileira a nossa calorosa saudação pela memorável conquista o bicampeonato mundial de futebol, desejando que esse memorável feito seja seguido de outros tantos, para elevação do nome de nossa Pátria no conceito mundial desportivo e o estreitamento cada vez maior do intercâmbio com todos os países, indistintamente, porque nesta hora em que pugnamos pela paz mundial, sentimos que o esporte abrindo caminho para o congraçamento de todos os povos, reforçará os laços de amizade com todos os países. Glória a Seleção de Ouro do Futebol Brasileiro. Cordiais Saudações”.
O governador em exercício, Arlindo Porto, pai do esquineiro Ivan Porto, enviou telegrama ao presidente João Goulart com efusivos cumprimentos pela conquista, a sugerir que a seleção visitasse todas as capitais do Brasil, a fim de que todo o povo pudesse ver os heróis da jornada de Santiago. Outra missiva foi enviada ao presidente da CBD, João Havelange, congratulando-se pelo enorme feito.
A conquista da seleção brasileira de futebol coincidiu com o ato inauguratório do VI Festival Folclórico do Amazonas. Ao término, houve o carnaval da vitória a comemorar a conquista do bicampeonato. Sob o patrocínio da empresa I. B. Sabbá foram distribuídos guaraná Andrade para o povo. Coube a Bianor Garcia, o jornalista das manchetes porretas e criador do supradito Festival, fazer a saudação às autoridades, ao povo e aos grupos folclóricos em nome da Empresa Archer Pinto, promotora do evento.
Evidentemente busquei a confirmação de todas as informações obtidas na Ágora. Nada precisei por ou tirar, os esquineiros sabiam mesmo  de tudo, sem sofismas.
Fico eu a pensar: quem dera que os excessos de hoje fossem como o cometido por Waldemar Ferreira dos Santos e a digna atitude por ele tomada; quem dera que a euforia exacerbada resultasse apenas em três colisões de automóveis, como as ocorridas em 1962: um na Avenida Sete de setembro com a Rua Joaquim Nabuco; outra na Rua da Instalação com a Saldanha Marinho e, finalmente, uma na estrada da Chapada; quem dera que ainda tivéssemos o singular e renomado jornalista Bianor Garcia, para criar uma manchete porreta a anunciar a conquista do hexacampeonato no dia 15 de julho, quem dera.
Vamos que vamos, Brasil!

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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