Crônica 4 meses atrás

AS COPAS QUE O BRASIL CONQUISTOU (1970)

Tal qual ocorre hoje, em 1970 o futebol brasileiro era grande por fora e pequeno por dentro, rico na sua inquestionável expressão de arte com a bola, pobre de organização, ideias e poupança.

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A Copa do Mundo de 1970, foi realmente especial, ganhamos o tricampeonato e a posse definitiva da Taça Jules Rimet. Entenda: o Congresso da FIFA, ocorrido em 28 de maio de 1928, através do seu Comitê Executivo, propôs que – por sugestão de seu idealizador, o então presidente da FIFA, Jules Rimet – a posse definitiva do troféu ficaria com o país que conseguisse vencer um total de três edições da Copa, logo, a Taça é nossa. O seu roubo na noite do dia 19 de dezembro de 1983, do prédio da CBF, na Rua da Alfândega, 70, centro do Rio de Janeiro, é um capítulo à parte.
Registre-se que era a segunda vez que isso ocorrera. Em 1966, em Londres, a roubaram, mas um cachorro a achou alguns dias depois. No Brasil, onde as coisas acontecem às avessas, o ou os cachorros a roubaram. O livro “Day of the Match” relata que um assessor da confederação brasileira de futebol teria dito que o roubo da Taça em Londres era um sacrilégio, que isso jamais seria ocorreria no Brasil, pois aqui, até mesmo os ladrões eram apaixonados por futebol. Bem, a paixão do ou dos ladrões na verdade não era por futebol, mas por quanto lucrariam com o derretimento dos 3,8 quilos de ouro que, na época, equivaliam a mais ou menos R$ 200 mil reais. Que cachorrada!
Tal qual ocorre hoje, em 1970 o futebol brasileiro era grande por fora e pequeno por dentro, rico na sua inquestionável expressão de arte com a bola, pobre de organização, ideias e poupança. Não existia dinheiro para pagar os contratos vencidos e nem pra pagar o prêmio prometido aos tricampeões. As rendas dos jogos eram baixas – salve os jogos televisionados de hoje! – e o calendário de atividades inadequado e deficitário. Incrível “coincidência”!
Santos e Botafogo, na época, eram os clubes mais importantes do país e confessavam suas falências e impossibilidade para atender seus compromissos mais urgentes. Ou seja: em 1970, dentro de campo, o futebol brasileiro amadureceu, adquiriu consciência profissional, condição atlética, física, técnica, tática e um brilho individual espetacular, fora, a pobreza era literal. Cabe o trocadilho: qualquer coincidência é mera semelhança.
Guadalajara, no México, foi Sochi, na Rússia. Guadalajara fica no coração de Jalisco, distante uma hora da cidade do México. Tem avenidas largas, mariachis e a vocação de viver com amor, além de belas mulheres. Era uma cidade sem pressa, que acordava às 6 da manhã, almoçava às 3 da tarde e jantava às 10 da noite. Era quase tão americana como Miami, metade histórica e metade sofisticada. Em 1970, sua população era de mais de 1,5 milhão. Guadalajara foi brasileiríssima e hostil aos adversários, negava aplausos aos países visitantes, só nós éramos merecedores. Sorte a nossa, a opção dos dirigentes do futebol brasileiro era que ficássemos em Puebla, cidade das 365 igrejas. Entretanto, no sorteio, deu Guadalajara. O presidente da Federação Mexicana de Futebol, Guillermo Cañedo, como consolo pela decepção sofrida por João Havelange, presidente da CBD – Confederação Brasileira dos Desportos, disse: “Hoje vocês começaram a ganhar o tricampeonato, conheço muito bem o meu estado de Jalisco e minha cidade Guadalajara. Pode crer: é a gente mais generosa deste país. Nem o brasileiro amará mais o seu futebol que Guadalajara. Agradeça a Deus pela troca inesperada”. A certeza do velho toureiro de Jalisco era inabalável. Nem o Maracanã lotado torceu tanto pelo Brasil quanto o estádio Jalisco, a cidade chorou quando os jogadores a deixaram.
O retorno da Seleção ao Brasil após a consagradora vitória (4 x 1) na final contra a Itália, teve uma escala primeira em Brasília. Naquela ocasião, foi a maior festa popular de toda a história da capital federal. O policiamento não conseguiu conter a massa que foi ao aeroporto e avançou a pista para abraçar e aclamar os jogadores. Como não poderia ser de outra forma, Pelé foi o mais visado. O público pirou quando o rei Pelé sambou e acenou para os presentes. O cortejo, desde o aeroporto até a Praça dos Três Poderes, contou com mais de cinco mil veículos, o que provocou um congestionamento monumental. Os jogadores, pra variar, desfilaram em três carros de bombeiros. A programação foi tão extensa, o que deixou os cariocas, escala seguinte, injuriados.
O público que aguardava impacientemente a seleção no Aeroporto do Galeão, no Rio, teve um “refresco” com a chegada das chacretes Verinha, Noêmia, Regina e Glória. O frenesi era tamanho, que elas foram cercadas e até bolinadas a valer, pudera, estavam de shorts pretos e a camisa da CBD, bem justas, tênis e nada mais. Precisaram pedir socorro de um soldado da aeronáutica para se livras das mãos bobas. Depois justificaram suas presenças a dizer que lá estavam para divulgar o Hino da Copa, ora, ora.
Mesmo com o chuvisco ninguém arredou os pés e o público só acalmou quando viu os carros dos bombeiros chegarem. O avião finalmente aterrissou às 18h: 43. A partir daí, foi uma loucura, gritos, lágrimas e tal de neguinho a abraçar neguinho como se fossem amigos de infância. Foi um carnaval fora de época.
Um ano antes da conquista do tricampeonato, o Nacional Futebol Clube jogou a preliminar da partida entre a Seleção Brasileira e Venezuela, jogo válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970. Jogou e ganhou do Grêmio Maringá (1 x 0). Em 5 de abril de 1970, a seleção brasileira inaugurou o estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão ou Tartarugão, atual Arena da Amazônia. As Seleções A e B do Brasil enfrentaram as seleções A e B do Amazonas, os resultados, como se fossem um presságio, foram iguais ao placar da final contra a Itália, 4 x 1 e 4 x1. Apesar disso, por aqui as comemorações foram mornas. É claro que a minha Rua foi exceção, mas aí caberia uma crônica pra contar o que o Álvaro “capiroto”, meu vizinho, aprontou, assim, é melhor me restringir às lágrimas do Flavio Augusto, o Papinha, agarrado ao seu rádio Transgloge e ao brilho encantador dos olhos do meu pai.
Passada a euforia da conquista, tudo voltou a ser como dantes, na terra de Ajuricaba. Falta d´água em decorrência de urgentes reparos na bomba hidráulica que jogava o precioso líquido para os reservatórios da cidade e a promessa do DAE-Departamento de Águas e Esgotos, de que tudo estaria normalizado no dia seguinte. A desculpa do DAE era que a paralização beneficiaria a cidade, que mais tarde poderia sofrer um colapso total. Acredite se quiser, isso há 48 anos. Né que parece atual?
Eram anos de “Brasil, Ame-o ou Deixe-o!” Assim, o presidente Emílio Garrastazu Médici, pouco depois da Copa, escolheria o coronel da reserva e engenheiro civil, João Walter de Andrade, ex-superintendente da SUDAM, para suceder Danilo Areosa no governo do Amazonas.
A Turislândia, aprazível lugar, festejava o fim do período das chuvas que tornava a estrada do Aleixo precária e convidava o povo para conhecer o encantamento de passar uma manhã de sol, onde a beleza das paisagens, o aconchego das cabanas e o prazer de banhar-se na piscina ou na represa era relaxante. Também lembrava os bancos sombreados por guarda-sóis, a magia de um passeio de barco no Vale das Sombras ou a visita da colina do horizonte perdido, a maior paisagem fluvial e florestal da terra. É uma pena que as gerações seguintes não tiveram privilégio de conhecer aquele sítio encantador.
O lado mais gris da sociedade baré, noticiava que depois de tomar um pileque, Elenize Gomes, sacou do revolver que trazia na cintura e danou-se a disparar a esmo a deixar os moradores do Jardim dos Barés em polvorosa. Era seu aniversário e, cheia da manguaça, verbalizava palavrões a torto e a direita. A polícia foi ao local e identificou que a pistoleira não era outra se não a amante e conivente do perigoso gatuno, Parazão. Ela foi presa e transportada parta para a Delegacia de Roubos e Falsificações.
Aniversário não, mas futebol inebria e entorpece, dessa maneira, antes que eu tome um pileque e cometa algum desatino, eu paro por aqui.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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