Geral 4 semanas atrás

BELÉM, 14 DE OUTUBRO DE 2018, CÍRIO DE NAZARÉ

“No mês de outubro, em Belém do Pará, é dia de alegria e muita fé, começa com extensa romaria matinal, o Círio de Nazaré” […]. Esses são versos do samba enredo da Escola de Samba Estácio de Sá,…

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“No mês de outubro, em Belém do Pará, é dia de alegria e muita fé, começa com extensa romaria matinal, o Círio de Nazaré” […].  Esses são versos do samba enredo da Escola de Samba Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, do carnaval de 1973. Eu o cantava em rodadas de samba em Manaus. A letra do samba era tudo o que eu conhecia sobre a padroeira do estado do Pará.

Em 2001 eu fui passar as festividades do Círio, oportunidade em que fiz o percurso e agradeci uma graça alcançada. Aquela iniciativa foi tão impactante, tão emocionante, que de lá para cá muitos Círios eu já passei na bela e aconchegante Santa Maria de Belém do Grão Pará.

Há duas imagens da Santa, a original e a peregrina, estas com características próprias e funções específicas. A original foi encontrada no ano de 1700, pelo caboclo Plácido José de Souza, às margens do igarapé Murucutu. Tem 28 centímetros de altura e traços de uma senhora portuguesa a carregar um menino em seu braço esquerdo. A escultura é feita em madeira no estilo barroco. Essa fica o ano inteiro no Glória, sobre o altar-mor da Basílica santuário de Nazaré. Só desce do Glória em maio, quando ocorre o aniversário da elevação da Basílica à condição de Santuário e durante o Círio, em outubro. Nessas ocasiões a imagem da Santa ocupa um nicho sobre o presbitério, para ficar mais próxima dos fiéis. Por solicitações dos fiéis, em 1968, o padre Giovanni Incampo encomendou uma réplica para que fosse utilizada durante as procissões e cerimônias oficiais. A Peregrina tem 28 centímetros, foi esculpida pelo artista italiano Giacomo Mussner e passou a ser utilizada a partir do Círio de 1969. Atualmente a Peregrina é utilizada nas doze romarias oficiais e em mais de 500 visitas. Quando da encomenda da réplica, um pedido especial foi feito ao artista italiano: Maria teria que ter o rosto das mulheres amazônicas e o menino Jesus a aparência de uma criança indígena. As cores da Peregrina são praticamente idênticas às da original, a diferença está no burel – manto que cobre o menino Jesus.

A festa do Círio tomou uma dimensão tamanha, que mensura-la é um desafio quase impossível. Há um espaço cultural que guarda um acervo com cerca de duas mil peças, memória dessa festa de fé, está localizado no anexo da Igreja de Santo Alexandre, na Cidade Velha.

O artesanato garante a policromia da festa, os brinquedos de miriti, feitos do “braço do miriti” – um galho de palmeira que é coletado, cortado, lixado, selado, pintado e montado -, invadem a cidade a retratar elementos amazônicos e símbolos ligados à festividade.

Usada desde 1982, a berlinda que conduz a imagem da Santa pelas ruas de Belém é um dos símbolos mais importantes do Círio, antes a imagem era conduzida no colo do capelão do Palácio do Governo, em um palanquim – espécie de liteira fechada, presa a um varal, e era levado nos ombros de quatro ou seis homens -, a berlinda atual, a quinta da história, foi confeccionada em 1964, pelo escultor João Pinto, tem o estilo barroco e foi produzida em cedro vermelho. A tradição pede que a berlinda seja ornamentada com flores naturais, utilizadas no Círio e na Trasladação. Nas demais romarias oficiais são usadas berlindas menores e mais simples. Algumas peças usadas nas procissões são mantidas em segredo até o último momento, como o manto e a decoração da berlinda que, aliás, todos os anos, antes do Círio, passa por pequenos reparos, esse ano foi pintada de dourado. Em 2012 a berlinda passou por uma restruturação, ocasião em que foi inserida uma nova cobertura de folhas de ouro.

O manto da virgem – um dos ícones da fé na Santa – anualmente é confeccionado por um  estilista convidado, que recebe a honraria e dedica toda sua inspiração para a obra encomendada, este ano o tema do Círio foi “Uma jovem chamada Maria”.

Artistas rendem homenagens, músicas são compostas, cantores e padres famosos gravam e regravam canções novas e antigas em louvor a Santa. Estilistas e designes transformam a imagem de Nossa Senhora de Nazaré e os muitos símbolos da fé em ícones fashions: medalhas, pulseiras, colares e roupas, só para citar alguns.

No sábado, véspera do Círio, há quatro romarias. A primeira tem início por volta das 05h30 com a missa na Igreja da Matriz de Nossa Senhora das Graças, em Ananindeua. Após a missa ocorre a Romaria Rodoviária. Durante aquela procissão, a imagem peregrina da Virgem de Nazaré é conduzida da Praça da Matriz de Ananindeua até o trapiche de Icoaraci, de onde sai o Círio fluvial, o “Círio das Águas”. Essa terceira romaria oficial do Círio segue a correnteza e o vento da baía de Guajará, acompanhada de barcos e balsas. Esse ritual que ocorre há mais  trinta anos, parte daquele trapiche aproximadamente às 9h, e tem como destino a Escadinha do Cais do Porto, na Praça Pedro Teixeira, em Belém. De lá, por volta das 11h:30, após receber as honrarias de Estado, a imagem da peregrina segue em romaria, é a Motoromaria, a terceira do dia, realizada desde 1990, que conduz a Virgem até a Basílica Santuário.

Assim que a Santa chega a Belém, há, ainda, o Arrastão do Círio, cortejo realizado pelo Instituto Arraial do Pavulagem desde o ano 2000, inspirado pela devoção do povo paraense em homenagem a Santa padroeira. A concentração tem início às 9h da manhã, na praça dos estivadores e percorre o centro histórico de Belém, até a Praça do Carmo.

A quarta romaria é a Trasladação da Santa da Basílica para a Igreja da Sé. Tem início às 17h: 30, após a celebração da missa pelo arcebispo, evento que ocorre em frente ao Colégio Gentil Bitencourt. Essa é a segunda maior romaria da programação da quadra nazarena em número de fiéis, este ano, estimou-se em um milhão e quatrocentos mil romeiros.

Ainda no sábado, há quatro décadas, após a Trasladação, acontece a Festa da Chiquita, que reúne a comunidade de Lésbicas, gays, Bissexuais e Transgêneros (LGBT), turistas e a população em geral. Além de diversas atrações, inclusive performances, o evento premia com o troféu “Veado de Ouro”, personalidades que lutam em defesa dos movimentos sociais. A festa ocorre no entorno do Theatro da Paz e celebra a diversidade e o respeito.

No domingo, dia do Círio – estima-se – compareceram quatro milhões de devotos a procissão. Mais uma vez testemunhei o caudal de fé, emoção e comoção; flagrei lágrimas e percebi gratidão nos rostos d e milhares de romeiros.

Os promesseiros são um capítulo à parte, são muitos a cumprir suas promessas por milagres e graças alcançadas. Carregam consigo casas em miniatura confeccionadas de miriti, objetos de cera, especialmente de partes do corpo humano – cabeça, braço, perna, próstata, coração, útero e outros – também são inúmeros aqueles que percorrem, de joelhos, todo o percurso da procissão, algo realmente impressionante.

Papel importante desempenham os voluntários da defesa civil e Cruz Vermelha, na prestação de atendimentos aos devotos que possam vir a necessitar de ajuda; além dos que se dedicam a distribuir copos descartáveis com água mineral. Bem, tem também o desejo comum em muitos romeiros: ficar com um pedaço da corda do Círio, aquela que isola o altar da Santa. Esse é um rito não programado e  impossível de ser contido.

Ações integradas dos órgãos de segurança pública desde o dia 28 de setembro até 29 de outubro, funcionam 24 horas por dia, a permitir aos romeiros a incomum sensação de tranquilidade e ordem.

A estimativa de gastos para a festa deste ano foi de R$ 3,851 milhões, recurso que vêm de patrocinadores oficiais e apoiadores, além dos governos municipal e estadual, instituições financeiras e doadores anônimos.

É curioso e impressionante ver como os lares dos paraenses ficam decorados com cartazes, imagens, flores e fitas coloridas. Há quem monte altar, ponha capas alusivas a Santa, a cobrir almofadas, toalhas de mesa, etc. A atmosfera de fé que envolve a cidade emociona.

Na hora do almoço as famílias celebram e confraternizam ao som de toda a sorte de músicas. Dançam, brindam e se esbaldam nas iguarias típicas do Pará. Este ano, assim como nos anos anteriores, cometi o pecado da gula, não deu para resistir, e como resistir? Tá lá no samba enredo: […] “Tem pato no tucupi, muçuã e tacacá, maniçoba e tucumã, açaí e aluá […]”. O autor do samba só esqueceu a tartaruga, que, justiça seja feita, estava uma delícia.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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