Reminiscências 9 meses atrás

É SEMANA SANTA, FALA BAIXO, LÚCIO! Ô MENINO ANTIPÁTICO!

A coisa era tão rígida, que ninguém podia se mirar no espelho; as mulheres deviam esquecer o batom e o perfume – eram sinais de vaidade -; tampouco se podia namorar, dançar ou cantar, atos que sinalizavam uma alegria que não condizia com ocasião de tamanha consternação; tomar banho era dar mole às tentações carnais; jogos como baralho e dominó também não eram aceitos, afinal, enquanto Jesus sofria na cruz, seus algozes se divertiam a jogar;

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É semana santa, fala baixo, Lúcio! Ô menino antipático! Esse ralho da madrinha Julieta eu nunca esqueci, depois dele por algumas semanas santas seguintes, eu falei menos e mais baixo que de costume.  

Para um curumim com oito anos de idade, ver as pessoas a falar baixinho e suavemente me levava a uma tristeza sem fim, despertava a minha curiosidade e me cobria de medo.

Ora, eu e meus irmãos crescemos a rezar o Pai nosso e ave Maria antes de dormir, sempre sob os olhares e ouvidos atentos da madrinha Julieta. O curioso é que nosso pai só entrava em igreja católica em ocasiões extremas, como casamentos, batizados, missas em ação de graça ou pela alma de quem dessa já tivesse partido. Já a minha mãe, bem, mamãe sequer foi batizada na igreja católica ou em qualquer outra. A despeito disso, a madrinha não relaxava.

Era tudo muito diferente, a atmosfera era de luto; os fervorosos, tementes a Deus, choravam a morte de Cristo durante toda a semana santa. A coisa era tão rígida, que ninguém podia se mirar no espelho; as mulheres deviam esquecer o batom e o perfume – eram sinais de vaidade -; tampouco se podia namorar, dançar ou cantar, atos que sinalizavam uma alegria que não condizia com ocasião de tamanha consternação; tomar banho era dar mole às tentações carnais; jogos como baralho e dominó também não eram aceitos, afinal, enquanto Jesus sofria na cruz, seus algozes se divertiam a jogar; ingerir bebida alcoólica e ficar bêbado era o mesmo que estar condenado a perder o juízo e não mais recuperá-lo. Manter relações sexuais durante a semana santa era o maior de todos os pecados, especialmente na sexta-feira da paixão, o sujeito que assim procedesse, fosse ele solteiro ou casado, ficaria impotente para o resto da vida e a mulher incapacitada para gerar filhos. Pior, se nesse dia um filho fosse gerado, nasceria com o Cão-no-couro e seria infeliz até o fim de seus dias. Cruz credo!

Em nenhuma época do ano se via tantas beatas, tantas filhas-de-Maria, tantos terços rezados,  joelhos dobrados, perdões clamados, confissões declaradas, promessas feitas, tantas lágrimas roladas… Era um torpor de fé incomparável, uma quaresma vivida com fervor. Em nenhuma época do ano tantas galinhas eram roubadas dos quintais e a culpa atribuída às mucuras. 

Este ano a semana santa começou no domingo de ramos, dia 25, e só terminará no domingo de páscoa, dia 1 de maio. Domingo de ramos, porque celebra a entrada de Jesus em Jerusalém montado em um jumento e aclamado pelo povo a ovaciona-lo como “aquele que vem em nome do Senhor”. Os ramos significam a vitória: “Hosana ao Filho de Davi: bendito seja o que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel; hosana nas alturas”.

Em Manaus nem tanto, mas a partir da quarta-feira, na sede de alguns municípios do Amazonas, como Benjamim Constant, por exemplo, o sino da igreja deixava de badalar com o toque de costume, nesse período era substituído por um toque mais suave, dolente, toque de lamento.

Na quinta-feira, dia 29, teve início o tríduo pascal, ocasião em que algumas igrejas ainda promovem o lava-pés, cerimônia que simboliza humildade e purificação, ritual que teve seu início há mais de dois mil anos. Nesse dia e também na sexta-feira as igrejas ficam abertas até mais tarde, para que os fiéis possam adorar o corpo do Santíssimo, eles creem que Deus lá estará. Ainda na quinta-feira acontece a procissão o Corpo de Deus (Corpus Christi), evento  que ainda arrasta multidões.

Durante a quaresma da minha infância, até a alimentação mudava, comer carne vermelha era um pecado sem perdão. Não se comia carne durante toda a semana santa e o devotado cristão deveria mesmo era jejuar. Com o tempo a Igreja foi cedendo, tanto quanto aos dias de abstinência, quanto aos dias de jejum. Hoje, apenas na sexta-feira, dia em que Ele volta para o Pai, ainda se conserva a tradição de se comer peixe. O peixe, que precede a Páscoa, era um símbolo que os crentes da igreja primitiva usavam para se identificarem.

Na sexta-feira da Paixão do meu tempo de menino, Manaus virava um cemitério, o comércio não funcionava só as igrejas católicas e os cinemas, todos a exibir películas sacras, como os Dez Mandamentos, Quo Vadis, Bem Hur, Sansão e Dalila e o mais antigo de todos, Paixão de Cristo, um filme em preto e branco e mudo. As rádios da cidade: Difusora, Baré e Rio Mar alteravam a sua programação musical e só tocavam cânticos de louvor a Cristo, músicas clássicas ou orquestradas.

Os cristãos ainda mantêm certos procedimentos, como cobrir os santos com tecido roxo e os sacerdotes trajarem indumentárias com o mesmo matiz. Sobre a semana santa, a registros históricos a relatar que “no século IV, algumas comunidades cristãs passaram a vivenciar a paixão, a morte e a ressurreição, o que exigia três dias de celebrações, consagrados à lembrança dos últimos dias de vida terrena de Cristo. Foi em Jerusalém que deu início a essa tradição. Assim a sexta-feira comemora a morte de Jesus Cristo, o sábado era o dia de luto e o domingo a festa da ressurreição. Os cristãos celebraram pela primeira vez a Semana Santa em 1.682 e, desde então, passou a ser festejada em oito dias”.

O sábado de aleluia, em tempos idos, era muito esperado, era o dia da malhação do Judas, uma enorme farra que tinha início às 09h00, sem hora para terminar, meus olhos infantis por anos a testemunharam. A tradição persiste ainda hoje, mas não com a expectativa e a quantidade de bonecos de Judas que se viam espalhados e pendurados nos postes das ruas de Manaus, nem com a gana de estraçalha-lo como dantes. Aquele boneco feito de pano, de corpo inteiro e preparado com antecedência, apanhava tanto quanto os humanos que hoje, por pouco ou quase nada, são linchados por seus semelhantes.

Desde o meu tempo de menino, os Judas são representados por políticos ou pessoas malquistas pela sociedade, autoras de malfeitos. É no rosto do Judas que mora a identidade da personalidade “eleita” para a malhação.

Para fechar as comemorações, tem a missa do domingo de Páscoa, depois dela as famílias cristãs se reúnem para o almoço.  Registre-se que para os descrentes, esses dias não passam de mais um feriado prolongado.

A palavra quaresma vem do Latim quadragésima, e significa espaço de quarenta dias. “A instituição litúrgica da quaresma, tal como chegou ao século XX, foi organizada em Roma, na segunda metade do século IV. Era o grande período em que toda a Igreja fazia penitência e se purificava a fim de preparar a Páscoa”.

Por fim, Páscoa deriva da palavra hebraica pesah, cujo significado é passagem. Para os cristãos é a passagem de Jesus da morte para a vida, trazendo salvação para todos os que nele creem.

A Páscoa ocorre na primavera, momento em que muitas religiões pagãs festejavam o fim do inverno, a vida e a fertilidade. Em decorrência dessas tradições pagãs é que surgiu o ovo e o coelho da Páscoa. O ovo a simbolizar a nova vida e o coelho a fertilidade.

Feliz Páscoa!

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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