Entrevistas 1 ano atrás

Entrevista com Rinaldo Buzaglo

Definitivamente o destino dele já estava traçado, não havia mais hipótese de desvio de rota, a combinação Rio, Bossa Nova e violão o forjaram um músico espetacular, compositor de canções que concorreram em festivais, dos melhores sambas de enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Sem Compromisso e de canções outras, como as que ele compôs para Malu, sua amada…

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Em 1958, exatamente quando a Bossa Nova nascia na Cidade Maravilhosa, seu pai, funcionário da Petrobras, para lá foi transferido. A família viria a morar em Copacabana, bairro da Zona Sul. O país vivia a chamada política desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek, aquela que queria fazer o Brasil crescer e se desenvolver “cinquenta anos em cinco”, os chamados “Anos Dourados”, ocasião em que o processo de industrialização do país acelerou; especialmente a indústria automobilística. Nosso entrevistado retroage àqueles dias de sua infância e recorda que, durante a campanha presidencial, quando lhe perguntavam quem venceria a pugna, se Jânio Quadros ou o marechal Henrique Lott, ele não hesitava e respondia: “vai ser o Jânio”. Que premonição daquela criança, àquela altura com cinco anos de idade! Jânio teve a maior votação até então obtida no Brasil. Ainda no Rio, seu tio Antônio o levou a uma loja para comprar-lhe um presente. Entre todos os objetos disponíveis, nosso protagonista decidiu por um violãozinho, que de tão pequeno mais parecia um cavaquinho. Definitivamente o destino dele já estava traçado, não havia mais hipótese de desvio de rota, a combinação Rio, Bossa Nova e violão o forjaram um músico espetacular, compositor de canções que concorreram em festivais, autor dos melhores sambas de enredo do Grêmio Recreativo Escola de Samba Sem Compromisso e de canções outras, como as que ele compôs para Malu, sua amada.  

Meu entrevistado de hoje é o amazonense de Manaus, músico virtuoso, musicista, cantor, menestrel e compositor Rinaldo Buzaglo.

Blog: Rinaldo, dirias que o violão que ganhaste do teu tio foi o começo de tudo?

Rinaldo: Eu era criança e tinha surgido o Samba de Uma Nota Só, do Antônio Carlos Jobim e Newton Mendonça… E eu tocava aquilo numa nota só (risos).

Blog: Então quando isso aconteceu?

Rinaldo: Eu voltei para Manaus em 1961 e gostava de ficar vendo as pessoas tocarem violão, mas foi somente em 1966, que eu comecei a tocar o instrumento pra valer. Na Rua Comendador Clementino, onde eu moro até hoje, tinha o Antônio Paulo, eu o olhava admirado. Depois fui começando a tocar. Enfim, quando se tem certa tendência , ainda que sem qualquer estudo teórico a coisa acontece. A maior parte da minha vida eu toquei de ouvido, fazendo o que o Baden Powell chamava de a Universidade da Madrugada.

Blog: Naqueles anos ser músico sofria preconceito?

Rinaldo: Havia um preconceito em relação à música na época de Noel, Ismael, Chiquinha Gonzaga, esta última então, foi altamente discriminada. Eu tive dois casos clássicos na minha vida. A mãe de uma namorada que eu gostava muito dizia pra ela: “Olha, ele é músico e tal…”. Em outro episódio a família mandou a moça para fora de Manaus porque namorava um músico. Dizia-se antigamente, em tom de ironia: “Ah, você é um bom de um músico!”.

Blog: E como teus pais reagiram?

Rinaldo: A minha mãe e meu pai queriam que eu fosse médico ou advogado, médico preferencialmente.  Mas não adianta lutar contra a natureza, quando se tem pendor para uma coisa não tem como mudar. A minha comadre  Heloísa, esposa do amigo Celito, contou para mim que, em 1973, eu tinha uma coleção de discos de vinil do Baden Powell e certa vez lhe  disse: “Guarda esses LP’s  que a mamãe não aguenta me ver agarrado com eles. Ela diz que eu não quero estudar, só tocar violão”.  

Blog:  A tua formação é musical, mas alguma vez tu tentaste enveredar por outro caminho?

Rinaldo: Pois é, em 1980, eu fui estudar Educação Física no interior de São Paulo, em Batatais, entre Franca e Ribeirão Preto. Passei no vestibular, mas era paradoxal você fazer ginástica de dia, tocar violão e beber de madrugada. Apesar de eu ser apaixonado por esporte, essa combinação nunca daria certo. Abandonei por essa incompatibilidade, mas tenho saudade até hoje. Tanto que voltei à cidade por três vezes para rever os amigos.

Blog: Tu participaste de Festivais da Canção aqui em Manaus?

Rinaldo: Eu participei de festivais na época do Aníbal Beça, do Alexandre Otto, Torrinho… Participei do Festival do Sesi. Em festivais eu ganhei um terceiro lugar e um vice, esse último  em parceria com o Celito. A canção era uma homenagem a um grande amor. Naquele festival o primeiro lugar coube ao próprio Celito, com a música Carmem Doida.

Blog: A música brasileira já passou por muitas fases, umas ricas outras pobres. Que momento mais te encanta?

Rinaldo: A melhor época foi aquela em que eu ligava o rádio e ouvia Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque, hoje isso é uma raridade. E porque essas eram as boas músicas? A melodia era mais bonita, a poesia também, tanto que as letras de músicas, como Construção (Chico Buarque), eram temas de vestibulares. A parte harmônica então, nem se fala, o que temos hoje é um desastre. Não é que eu seja conservador ou esteja ficando velho, não! O que aparece hoje bonito eu aplaudo, mas as coisas eram inegavelmente melhores. Assim como o futebol que também era melhor.

Blog: Suponho que nesses anos de estrada e com o talento que tens, pudeste acompanhar alguns expoentes da música nacional. Estou certo?

Rinaldo: Sim, nessa carreira de músico eu conheci e acompanhei muitos cantores, entre eles Miltinho, Benito de Paula, Altemar Dutra, Waleska ( a rainha da fossa), Mariza Gata Manso, Luiz Américo, Lúcio Alves. Também toquei com Jorge Aragão, antes do sucesso que hoje ele desfruta. Na verdade o reconhecimento profissional independe do lugar de nascimento, o que importa é o seu talento.

Blog: E quanto ao Baden Powell, de quem tinhas coleção de discos de vinil, tu tiveste oportunidade de com ele tocar?

Rinaldo: Com o Baden eu não toquei, mas estive com ele. Até me fez um carinho, assinando na minha carteira da ordem dos músicos: “Ao meu amigo e colega Rinaldo …”.  

Blog: Como a Escola de Samba surgiu em tua vida?

Rinaldo: O meu pai era um folião, frequentador dos bailes de Carnaval, especialmente do Rio Negro, só saia quando a festa terminava e de lá ia, a pé, até a Praça da Polícia, onde os foliões se dispersavam. Portanto, eu sou de família de carnavalescos. Mas em 1977, eu e o amigo Álvaro Neves, dono do antigo Restaurante Canto do Alvorada, fomos ao Rio. Tínhamos brigado com as respectivas namoradas e decidimos viajar. Ele ficou em Laranjeiras e eu fui para a Tijuca. Um amigo do Rio me ligou convidando para uma seresta na Rua São Francisco Xavier, canto com a Avenida Maracanã, na Tijuca. Eu fui e levei o violão, é claro. A farra foi grande, quando deu 11 horas da noite (a brincadeira tinha começado às seis), ele disse: “O grande programa hoje é a Presidente Vargas, desfile das escolas de samba. Vamos pra lá? Eu respondi, vamos. Levamos vodca com suco de laranja em garrafas de um plástico muito maleável, diferente do PET. Enchemos duas daquelas garrafas. A cor do conteúdo era de um amarelo pálido, graças à desproporção entre a vodca e o suco de laranja (risos). A Presidente Vargas não era essa coisa que acontece com a Sapucaí, cheia de turistas. Às seis da manhã, depois da Portela ter passado, o apresentador mandou: “Senhoras e senhores anunciamos agora a próxima escola a desfilar, com vocês, União da Ilha do Governador!”. A União me desce com isso aqui: (ele pega o violão e toca) “Vem amor Vem à janela ver o sol nascer Na sutileza do amanhecer Um lindo dia se anuncia (…)  No Rio colorido pelo Sol As morenas na praia Que gingam no samba E no meu futebol (…)”. Quando o Aroldo (Melodia) disse Vem amor, vem à janela (…), vinha uma bola de fogo atrás …aí não tinha como. O Murilo Rayol certa vez me disse que nunca, num momento artístico, ele havia chorado tanto quanto naquele desfile da União da Ilha, ele também estava lá. Eu nunca havia visto uma bateria fazer paradinha, o Mestre André era de Vila Vintém, lá de Padre Miguel e o Castor (de Andrade) tinha brigado com ele, aí ele foi para a Ilha. Ou seja: a famosa paradinha da Escola de Padre Miguel foi parar na Ilha.

Blog: E aqui em Manaus, como a Escola de Samba aconteceu?

Rinaldo: Em 1982, eu fui até a casa do Aníbal (Beça) e disse: “Aníbal, a Portela lançou um samba agora, chamado Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite. (Ele pega o violão e toca) “Deixa-me encantar (…) dança quem á na roda, dança de brinca (…)”. Aí veio o Samba Enredo da Sem Compromisso, Hotel Cassina Apoteose e Poema. Comentei com o Aníbal: “A gente põe um descritivo e refrão, a ideia, não melodia ou harmonia (cabeça, refrão, descritivo e refrão) e gravamos”. (Ele pega o violão e toca) “Eu embarquei no tempo (…) Paris das selvas, mon amour trè Jolie (…)”.

Blog: E quem gravou esse samba enredo, um dos mais belos da história do Carnaval de Manaus?

Rinaldo: Como intérprete o  Aroldo Melodia, como músicos eu e músicos do Estúdio Transamérica RJ. A história foi a seguinte: o secretário de Fazenda era um querido amigo, chamado Felismino Soares. Eu mostrei o trabalho para ele, disse que houve uma disputa na quadra de Escola e eu e Aníbal havíamos ganhado.  Ele disse: grave isso de primeira linha que eu garanto.  Eu respondi que meu sonho seria gravar com o interprete da União da ilha. E o que falta? Perguntou ele.  Pronto, levantamos os custos, o Aníbal viu tudo e repassou para ele. Nós fomos para o Rio. Entramos em contato com o Genaro, do grupo Som 7, porque ele conhecia todo mundo. Aníbal disse ao Genaro que eu queria que fosse o Aroldo Melodia, porque eu  o tinha visto  cantar na Presidente Vargas e tal… Será que o Aroldo vem? Eu ficava a me perguntar. O Aroldo veio.  Contamos a história para ele e ele perguntou: E quanto à cifra? Eu lhe disse que relaxasse porque essa estava garantida. Ele insistiu: Sim, mas quanto representa essa cifra? Disse-lhe que escreveria a cifra direitinho, que ele não se preocupasse. Não, insistiu ele, eu me refiro ao “cacau”, ao pagamento. A cifra que o Aroldo se referia não era musical (risos). Acertamos com ele direitinho. Fomos para o seu apartamento, na ocasião ele vivia com uma ex-comissária de bordo chamada Ivone Leoni.

Blog: Foi a partir daí que tua amizade com o Aroldo Melodia começou?

Rinaldo: Sim, a partir daquele dia começou a minha história com o Haroldo. Naquele dia eu iniciei tocando brega e bolero e o Aroldo depois passou a cantar Lupicínio Rodrigues, seresta (risos). Aí ele disse que tinha um show em Araruama, me convidou, a partir daí viramos irmãos. Trouxemos o Aroldo para Manaus.

Blog: Então tens uma relação afetiva com a União da Ilha?

Rinaldo: Sim, eu desfilei por 18 anos na União da Ilha, sempre tocando violão. Parei há dez anos. Mas anualmente sou convidado pelo presidente Ney Filardi, meu projeto é completar 20 desfiles.

Blog: Fizeste algum outro Samba Enredo para a Sem Compromisso ou para outra Escola de Samba de Manaus?

Rinaldo: Sim, em 1995, eu e Celito fizemos  Folias de Momo, samba que conta A história dos bailes de Carnaval de  Manaus: Rio Negro, Jardineira, Kamélia, Cheik, Ideal, Mocidade Clube… Desse dia eu não posso esquecer, estava com a Mirla, mãe da minha única filha, a linda psicóloga Ana Carolina, e ela me disse: “Hoje estou no dia fértil”. Eu respondi: “Hoje eu vou te fazer um filho”. Não deu outra, naquela data deu samba e filha. (Ele pega o violão e toca) “Hoje é segunda-feira, e eu Sem Compromisso vou sair, por aí, Manaus é um grande salão, sou confete sou balão, o que eu quero é explodir, não sei se vou de havaiana ou com o meu traje a rigor (…). Também fiz com o Aníbal para a Unidos da Getúlio, Vento e Sol, Passa Cerol, baseada na obra do Thiago de Melo. Ambas o Aroldo Melodia gravou. (Novamente pega o violão e toca) “Nasci com o sol , para o vento me criei (…) papagaio de famão é banda de asa flecheira (…)  é trança que não destrança (…)é linha na descaída (… ).

Blog: Fale-me dos barzinhos de Manaus nos quais tocaste.

Rinaldo: O precursor dessa coisa de barzinho foi o Maca’ s Drink, lá no Aleixo, eu e meu amigo José Augusto Maneschy, o Maca. Toquei também no Calabar, na Choparia Signo’s, quando funcionava atrás do Cemitério, no Paulo´s Bar, Quatro Graus. Mas essa era uma época romântica em que se tinha um repertório riquíssimo. Às vezes toco choro no Bar Caldeira, ou quando é para homenagear Tom Jobim, Vinícius… O Carbajal deu um up no bar. Sabe, eu acho que a música é para deleitar, não para conturbar. Os decibéis atuais agridem a minha audição. Eu amava, e ainda amo, ambientes mais aconchegantes, mais privê, onde rola um bom papo, vinho, petiscos e até flerte. Uma roda de violão. Não faço mais porque tenho a Malu (Maria Luzia), não preciso mais conquistar ninguém. Mas que tenho saudades, isso tenho.

Blog: Rinaldo, tiveste alguma experiência musical internacional?

Rinaldo: Sim, fizemos um show na Itália inesquecível. Eu, o maestro Jere, o saudoso Francisco Amílcar, Junior Casqueta e umas mulatas estonteantes. Foi em Udine, na Itália, durante um evento esportivo, em 2007. Fomos aplaudidos de pé. Pegando o gancho, a Udinese passou a ser o meu segundo time, o primeiro é o Flamengo (risos). Claro que o fato do galinho de Quintino ter jogado lá reforçou, o Zico foi ídolo da Udinese.  

Blog: Qual é o teu estado civil atual?

Rinaldo: Rapaz, eu tive sete mulheres em minha vida e justifico a razão. Eu tenho um profundo medo de assombração, de alma. Por isso, quando eu separo de uma companheira, imediatamente eu preciso logo encontrar outra pra não dormir sozinho. (risos)

Blog: Com tantos relacionamentos deves ter passado alguma frustração amorosa?

Rinaldo: Digamos que uma frustração amorosa infanto-juvenil (risos). Eu era apaixonado pela Kátia, uma loura linda, paranaense, ela tinha doze anos e eu catorze. Isso na Rua Comendador Clementino. Imagina o que é uma menina daquela idade falando de Machado de Assis, ela era inteligente e culta. Certo dia eu estava com ela, olhei-a nos olhos, me tremendo todo (risos) e disse, num sacrifício hercúleo: “Eu gosto de ti”. Ela, precoce, me disse: “Eu te amo”. E me abraçou. Minha felicidade naquele dia era a de um acertador solitário de um prêmio de loteria acumulada. Mas ele também me disse: “Só tem uma coisa, papai não quer que eu namore, ele não deixa”. Veio o réveillon e lá fui eu pra parte mais baixa da minha rua. Naquela época, antes das “brincadeiras” (festas em residências) a gente tomava “leite de tigre” e “calcinha de renda”. Eu me esbaldei na Sidra. Fui até onde funcionava o Instituto Maria Madalena e pus-me a chorar.  A bebida tem a capacidade de despertar a coragem, mas eu só chorava. Vieram os fogos saudando o novo ano e eu lá, chorando. Era a virada do ano de 1969/70 e eu resolvi que deveria encarar o velho, pai da Kátia. Lá estava ela, linda, em plena Rua Comendador Clementino, perfilada com toda  a sua família: pai, mãe, irmã, irmão. Não consigo esquecer o rosto da Kátia, apavorada com a minha aproximação, pior, não dava para disfarçar o meu estado etílico. O pai dela era um homem de alta estatura, longilíneo. Faltando poucos metros eu parei, engrossei a voz e gritei: Seo Lucas! Ele de lá respondeu, ainda mais grosso e em tom mais alto: O que é?  Eu lhe respondi com a voz fina e suavemente: Que horas tem, hein? (gargalhadas sem fim)

Blog: Qual a tua opinião relativamente aos incentivos dados por órgãos públicos do Amazonas aos artistas locais?

Rinaldo: Até existe incentivo dos órgãos públicos, mas a disparidade de cachês entre o artista amazonense e o de fora é humilhante. Essa disparidade monumental é inaceitável. Agora, fora essa discrepância, não entendo essa coisa de misturar gêneros, ritmos, culturas e épocas. Boi é boi, Carnaval é Carnaval, esse Carnaboi inventado é um monstrengo.

Blog: Para finalizar, Manaus ainda te encanta?

Rinaldo: Minha cidade me encanta e me desencanta. Encanta pela evolução, desencanta pelo trânsito, pela violência. E não é bairrismo, porque isso é uma tolice. Todas as cidades têm seus defeitos e suas qualidades.

P.S.: Concluída a entrevista Rinaldo pegou o violão, tocou e cantou para o deleite dos presentes até quando o vinho lhe bastou. Foi uma noite de música, descontração, risos, revelações y otras cositas más.

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Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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