Reminiscências 9 meses atrás

ESTÓRIAS DE PESCADOR

Conheci a simpática cidade de Barcelos no longínquo ano de 1984. Lá estive por três motivos: conhecer a primeira capital da província do Amazonas, beber o bom açaí e pescar. O barco que fretamos – eu e diversos amigos – lá aportou na boca da noite. Às vinte horas, saímos para jantar na casa de […]

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Conheci a simpática cidade de Barcelos no longínquo ano de 1984. Lá estive por três motivos: conhecer a primeira capital da província do Amazonas, beber o bom açaí e pescar.

O barco que fretamos – eu e diversos amigos – lá aportou na boca da noite. Às vinte horas, saímos para jantar na casa de um parente do Tavares, o simpático e espirituoso comandante da embarcação. Tavares nos disse que comeríamos um “pirarucu prá lá de especial”, o que encheu nossas bocas de água. Enquanto aguardávamos a janta, ele, sem parcimônia, enchia os nossos copos de cerveja. A aposta do Tavares era nos deixar “borrachos”, esfomeados e incapazes de perceber que o “pirarucu prá lá de especial”, era pirarara.

Enquanto nós comíamos, ele nos fotografava com a sua ultramoderna Canon T50 – a primeira câmera SLR automática– e liberava gargalhadas sem motivos que as justificassem. Na primeira garfada o meu palato denunciou: aquela carne não era de pirarucu. Deixei quieto, tecer qualquer comentário seria uma indelicadeza com os anfitriões. Ademais, eu precisava matar a fome que me matava, assim, fiz o que os famélicos fazem: enfiei a carne goela a baixo, devidamente acompanhada de farinha d´água e pimenta murupi. Estava bem feita e gostosa, come-la foi prazeroso. Enquanto a devorava concluía, sem qualquer margem de dúvida, que a manutenção dos copos cheios de cerveja e as desconexas gargalhadas do Tavares tinham tudo a ver.  

Assim que o jantar terminou, chamei-o em particular e inquiri: Que porra de peixe era aquele? Esse peixe não era pirarucu nem aqui e nem na casa do carvalho! O comandante não conteve os frouxos risos, pediu a palavra e, abraçado ao irmão, confessou o estelionato.

Pra não passarem recibo de ignorantes gastronômicos, meus amigos pescadores disseram que identificaram a fraude desde a apresentação do prato. Que tal?

Pescador que é pescador, seja amador ou profissional, é mesmo um contador de estórias.

Há quem confunda carne de jacaré com carne de pirarucu, eu não. Carne de jacaré eu comi pela primeira vez, durante a viagem que fiz com o querido amigo Norton César Marques Pinho, no trajeto Eirunepé/Manaus,a bordo do Leon, o barquinho que compramos em sociedade na década de 1980. Léo, um pescador profissional e o melhor arremessador de tarrafa que eu conheci, viajava conosco, foi ele quem o cozinhou. Estava uma delícia! O céu cheio de estrelas, a piscar pra nós, testemunhou o banquete.

A carne de jacaré tem mais gordura e é enervada, o que a torna mais dura e menos saborosa. Quando apresentada nas condições seca e salgada, seu visual é muito parecido com a de pirarucu.  Já a carne de pirarara, quando exposta em forma de filé, se assemelha a de pirarucu, pois deixa à amostra sua cor branca e avermelhada.

Carnes de jacaré e pirarara não são nada desprezíveis, só não dá pra compara-las a de pirarucu. Essa, aliás, eu como quase que semanalmente. De todas as carnes de peixe que já experimentei – tanto de rio, quanto de mar – é a que eu mais aprecio.

Em determinada ocasião, lá na feira da Panair, bem antes de experimentar a carne de jacaré preparada pelo Leo, eu quase compro carne de jacaré como se fosse de pirarucu. Sorte a minha ter suspeitado, pois já ouvira falar da semelhança e do golpe que alguns peixeiros aplicavam em consumidores desavisados. Só não fui mais um na estatística dos ludibriados, porque resolvi empostar a minha voz – como se autoridade no assunto eu fosse – e questionar o individuo. O peixeiro danou-se a gaguejar e, na maior cara de pau, disse que tinha sido enganado pelo fornecedor. 

Pescador e peixeiro tem cada estória!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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