Reminiscências 8 meses atrás

ET, O ENCANTADOR DE TERRÁQUEOS

Conta-se que em Barra Mansa, estado do Rio de Janeiro, no segundo dia de março de 1942, uma nave espacial prateada pousou e, sem dizer por que, deixou um ET e partiu. Há indícios que a tripulação daquela gigantesca espaçonave tenha vindo com uma única finalidade: deixar um alienígena para um longo experimento de convivência com os terráqueos e para lembrar-lhes boas práticas, há tempos desprezadas.

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Conta-se que em Barra Mansa, estado do Rio de Janeiro, no segundo dia de março de 1942, uma nave espacial prateada pousou e, sem dizer por que, deixou um ET e partiu. Há indícios que a tripulação daquela gigantesca espaçonave tenha vindo com uma única finalidade: deixar um alienígena para um longo experimento de convivência com os terráqueos e para  lembrar-lhes boas práticas, há tempos desprezadas.

O pequeno ET chegou ao planeta Terra transmutado em humanoide. Aqui foi acolhido por um casal, que tinha na simplicidade sua qualidade primeira e na humildade sua capacidade de  resistência. Batizado e registrado, o pequeno ET recebeu o nome de Expedito, filho do casal Teodoro.  

Consciente ou coincidentemente as iniciais de seu nome revelavam a sua origem Extra Terrestre.  ET cresceu a conviver com as agruras e as dificuldades pelas quais passa uma singela família de terráqueos. Em seu processo de formação assimilou, naturalmente, as qualidades de ser simples e humilde – herança transmitida por seus pais -, capacidade que, sem cerimônia, usou e abusou durante a sua passagem por nosso planeta. Enquanto entre nós esteve, Expedito nunca entendeu as razões de a raça humana alimentar sentimentos inferiores, como a inveja, a cobiça, a ira, o ressentimento… e toda a sorte de maldades, mitologicamente contidas na caixa de Pandora.  

Nos anos 1960, já adulto e perfeitamente adaptado a vida humana, Expedito deparou-se com o fenômeno escolar da superlotação universitária que se instalara no Brasil. Época em que surgiram os “excedentes”, estudantes/candidatos que obtinham a média nos vestibulares, mas não conseguiam se matricular nas escolas de nível superior, porque o número de aprovados extrapolava o número de vagas disponíveis.  

No final de dezembro de 1965, ele soube que, em 04 de dezembro daquele ano, através da Resolução N° 06, de 20 de novembro de 1965, do Conselho Universitário da Universidade do Amazonas (UA), havia sido instalada a Faculdade de Medicina da UA.

No ano seguinte (1966), a primeira turma de alunos entrou através de vestibular prestado em 1965. Foi por essa época e por ser aluno excedente, que ele saiu de Barra Mansa e veio para Manaus estudar Medicina. Por uns poucos meses seu pai o bancou, mas as escassas condições financeiras da família descontinuaram aquela ajuda e ele precisou se virar sozinho. Naqueles dias de pindaíba, Expedito chegou, inclusive, a dormir em bancos de praças. Determinado, não seria aquela provação que o faria desistir do sonho de se tornar médico.   

Com o apoio do velho Josué Claudio de Souza, fez um teste de locução na Rádio Difusora. Sua voz não o credenciou e ele aceitou trabalhar como ajudante nas tarefas administrativas da rádio, uma espécie de Office boy.

Em um dia chuvoso, a antena da rádio desligou. Josué deu-lhe a missão de religa-la. Emprestou-lhe a chave de seu carro e Expedito foi até o local onde a antena estava instalada. No trajeto de ida, se deparou com um carro em pane mecânica. Ele parou, estacionou e, sem se importar com a chuva torrencial que desabava sobre Manaus e tampouco saber a quem pertencia aquele veículo, socorrer o aflito motorista.

Tratava-se do diretor presidente da extinta Empresa de Portos do Brasil S.A. PORTOBRÁS ( hoje as atividades portuárias estão aos cuidados da Secretaria de Portos da Presidência da República). O cidadão deu-lhe um cartão de visita e pediu-lhe que o procurasse.

Dias depois ET foi à PORTOBRÁS. Lá revelou ao presidente da estatal que era estudante de Medicina e que passava por dificuldades para aqui se manter. Grato com o ato do estudante, o homem o contratou como estagiário e assegurou-lhe efetivação funcional tão logo concluísse o curso de Medicina. Assim foi. Expedito trabalhou naquela empresa até a sua aposentadoria. Esses encontros de almas generosas e gratas são raros, mas quando ocorrem, escrevem belas e inolvidáveis histórias. A vida do ET, trajado de humanoide, é repleta de episódios como esse.  

Seu amor pela música era imenso e indissociável, às vezes a correr na raia do surreal. Certa vez, durante a paridade do dólar em relação ao real, foi assistir ao show dos Três Tenores, em Miami. No dia do evento, como invariavelmente fazia, acordou às 5h: 00 da manhã tomou café e aguardou a hora de o comércio abrir. Salomão Benchimol, humano e também amante incondicional da música, o acompanhava naquela viagem. Iniciado o horário comercial americano, foram cumprir o imprescindível programa de garimpagem de discos.

Na megaloja Salomão fez o que qualquer consumidor de discos faria, levou consigo a cesta que guardaria os produtos selecionados. Já ET, usou um carrinho de supermercado. Quando Salomão viu o carrinho entupido de discos, disse-lhe: “Não pode ser assim, amigo Expedito, temos uma cota de compras em dólar a ser respeitada, com essa quantidade toda que estás levando, terás problema na Alfandega de Manaus”. Com o semblante completamente sério, ele respondeu candidamente: “Mas Salomão, só tem raridades”. Diante de argumento tão “convincente”, restou ao Salomão desistir da contra argumentação. Iluminado como era, passou pela Alfândega como se estivesse consigo apenas o que de Manaus levara.

Em outra ocasião, ET e Salomão levaram seus filhos para estudar na University Gainesville, na Flórida. Era um tempo de dificuldades operacionais, a internet era incipiente e a telefonia celular ainda não tinha o alcance e nem os recursos que hoje nos oferece. Ao se deparar com as dificuldades e embaraços para confirmar as matriculas e acomodações do Michel Benchimol  e do Summerlee Teodoro, ET cumpriu a promessa que havia feito ainda em Manaus e deu início a uma greve de fome. A interrupção voluntária de se alimentar como forma de protesto só acabou após dois dias, quando teve a certeza de que ambos estavam matriculados e acomodados. A fé era outra característica humana marcante que o nosso ET incorporou.

Outro episódio que bem representa o quão querido era o ET, foi quando visitou a Sra. Edneia, viúva de H. Dias, seu amigo, ocasião em que esta estava a vender o acervo discográfico do falecido marido. Enquanto Expedito escolhia os discos que lhe interessavam, a viúva comentou que estava a passar enorme dificuldade para receber a pensão por morte do INSS. Discretamente ele anotou um nome em um pedaço de papel, entregou-o à viúva e recomendou-lhe que procurasse, em seu nome,  certa servidora do Instituto. No dia seguinte a Sra. Edneia foi ao INSS e lá encontrou as portas escancaradas. A pessoa que a atendeu disse-lhe que um pedido do Dr. Expedito era uma obrigação. Expedito era amado, respeitado e admirado por todos que tiveram a felicidade de com ele conviver.

De gosto musical eclético e sensibilidade aflorada, o médico caridoso era membro fundador do Clube dos Discófilos Fanáticos-CDF, confraria que tenho a honra e o privilégio de pertencer. ET sempre nos surpreendeu com trabalhos musicais riquíssimos em qualidade e pesquisa. Multifacetado, no Clube ele foi quem bem quis, e se caracterizava admiravelmente, despido de qualquer timidez: foi Tio Sam quando apresentou um belo trabalho com músicas que cantavam Nova York; Papa Expedito, quando explorou músicas sacras; Daniel Boone, quando o tema escolhido foi música country; escocês, ao apresentar músicas celtas; também  foi palhaço e Elvis Presley, quando nos brindou com a rica obra daquele artista americano.

ET às vezes chegava a ser de uma inocência comovente, como quando quebrou o paradigma de que o CDF era uma confraria exclusivamente para homens. Foi o único a levar uma mulher para cantar a Marselhesa, noite em que homenageou a música francesa.

Expedito Teodoro era um homem de alma pura, um pai extremado, marido dedicado, amigo, um ser de luz, incomparável, único, diferente, uma unanimidade, coisas de quem não era mesmo deste mundo.

Ele, e só ele me chamava de Lucho, talvez por minha preferência musical latina, talvez para homenagear o chileno Gatica.  

Sexta-feira, dia 26 de janeiro, a mesma nave prateada que o trouxe a terra aterrissou em Manaus, veio busca-lo, havia chegado sua hora e ele se foi. Deixou um vazio impreenchível, um legado sem par e cumpriu a missão que lhe foi delegada: semear o bem.  

Para nós, do CDF, ele se tornou três vezes imortal: como membro do Clube, como Elvis que um dia tão bem encarnou e como o encantador de terráqueos que era.

Muito obrigado, amigo Expedito Teodoro!

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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