Reminiscências 7 meses atrás

EU E O ATLÉTICO RIO NEGRO CLUBE

O Atlético Rio Negro Clube, “o clube líder da cidade”, o “clube barriga preta”, ficava a menos
de 500 metros da minha casa. Na condição de sócio dependente, lá frequentei o parque
aquático, incluindo-se aí uns saltos de cabeça do trampolim de prancha – de olhos fechados, é claro –

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O Atlético Rio Negro Clube, “o clube líder da cidade”, o “clube barriga preta”, ficava a menos de 500 metros da minha casa. Na condição de sócio dependente, lá frequentei o parque aquático, incluindo-se aí uns saltos de cabeça do trampolim de prancha – de olhos fechados, é claro – e outros em pé, do trampolim mais alto, feito de estrutura de concreto – altura sempre me provocou vertigens. Também comi feijoadas deliciosas e brinquei memoráveis carnavais. Apesar dessas atividades e fatos lá vividos, não fui frequentador assíduo do clube.

Entre os anos 1963 e 1972, brinquei carnavais nos bailes infantil e juvenil. Finalmente, em  1973, tive o privilégio de estrear no glamoroso  Baile de Gala de segunda-feira nos Salão dos Espelhos.

Antes, acompanhado da minha tia Julieta, a “madrinha”, eu me contentava com o “sereno”, a ver o brilho e a luxúria dos smokings e vestidos longos que, como se a desfilar em Milão ou Paris, adentravam o clube sobre uma passarela improvisada de madeira.   

Alguns fatos marcaram indelevelmente a minha memória. Aquele torneio de futebol salão promovido pelo Edinho Negreiros, em 1971, foi especial.  

Depois de superarmos dois adversários, fizemos a final com a poderosa e bem treinada equipe do Rio Negro, do técnico Edinho. O time que eu defendia, juntamente com meu irmão Cadinho, os primos Armando e Wilson e mais de uma dezena de queridos amigos, era o Fluminense Futebol Clube, agremiação cuja sede funcionava nos fundos de nossa casa, na Rua José Clemente, 268.  

O que torna epopeico o resultado final é que nossa “praia” era o futebol de campo, não o futsal. Enfrentamos um timaço que tinha Estevinho “Cupim” no gol, os irmãos Mário Jorge e André Buriti, Dorval Vieira, Toinho “Boi” e, segundo o meu irmão Cadinho, o maior de todos os atletas de futsal que ele já viu jogar, Willard Vieira, o Careca.

O jogo foi disputadíssimo. O Rio Negro, apoiado pela maioria esmagadora dos torcedores presente, exerceu enorme pressão nos últimos minutos da peleja. Incomodados com aquilo, nossos atletas que compunham o banco de reservas, sem vergonha de serem felizes, mandavam, aos berros, recomendação ao nosso goleiro, Arkbal Sá Peixoto, o “Bala”, para que fizesse cera. Acostumado com o futebol de campo, Bala entendeu que todas as vezes que tivesse que repor a bola em jogo, antes teria que se agarrar a pequena pelota e com ela rolar na quadra sem pressa alguma. Além de irritar os atletas rionegrinos, foi advertido pelo e juiz e quase expulso.  

O jogo terminou 2 x 1 para nós, eu e Cadinho fizemos os gols do Fluminense, Careca marcou para o do Rio Negro. Os jogadores do “Barriga Preta”  não se conformaram com o resultado e muito menos com as provocações dos empolgados tricolores. Eu e Careca até ensaiamos uma briga que, felizmente, ficou só no “o que que tu vai querer?”, “Quem for mais macho cospe aqui”.

Na saída fomos seguidos e ameaçados por eles, Rua Epaminondas a baixo. Mais ou menos em frente à casa do Gonzaga e do Bolinha, filhos do dono da loja A Cearense, o Edinho, que a tudo acompanhava, gritou: “Deixem os meninos em paz!”, e eles  obedeceram. Assim, chegamos à nossa sede sãos e salvos a exibir pra toda a “Nossa Rua” o troféu conquistado.

A taça desbotou, mas ainda existe, o que não desbota e resiste são essas reminiscências.

No ano seguinte, lá estávamos eu e Cadinho na escolinha de natação do clube, sob a orientação do professor Waldir Oliveira. Não sei o porquê de termos permanecido pouco  tempo, mas foi lá, na piscina semiolímpica “Flávio de Castro”, que eu aprendi a nadar os quatro estilos.

O parque aquático, hoje denominado “Aristophano Antony”, foi inaugurado no dia 13 de novembro de 1960, por ocasião da passagem do 47º aniversário do clube. Além da piscina semiolímpica, tem a piscina “Gilberto Mestrinho”- a piscina das crianças. Anos depois, o que havia aprendido com o professo Waldir me salvaria de algumas  “ressacas” enfrentadas nas águas da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Outro fato que a minha lembrança guarda dos momentos vividos no Rio Negro, foi a passagem do professor de Savate (ou Boxe Francês), Rodolfo Page. Chamava-me muita atenção a plasticidade daquela arte marcial francesa, que começou como lutas de Rua em Paris e acabou por se desenvolver em um esporte que exigia o uso das pernas e mãos.

O professor Page era branco, alto, tinha o nariz grande, afilado – traço característico dos franceses – e, penso, já passava dos 50 anos de idade. Usava luvas de boxe, sapatos específicos, short e dispensava camisa.

Não recordo de ter visto os “peixes” Alfredo Jacaúna, os irmãos e primos Façanha ou os Caminha a praticar aquela luta; sobra-me imagens do Aly Almeida, Mahamoud Saleh – irmão do Nabil Saleh, este veementemente rejeitado pelo “professeur”-, Flavio Antony, o Flávio “Lapiseira”, e Aloizio  Soares Bitencourt, o “Maçarico”, apelido cunhado por Kako Caminha.

O Atlético Rio Negro Clube me fez sorrir e chorar. Sorrir de passagens como essas que acabo de narrar, dos bailes de Carnaval e das feijoadas dançantes; chorar do dia em que o Rio Negro sapecou 7 x 2 no meu Nacional.  

O clube foi palco do primeiro Festival Estadual de Dublagem, de shows de cantores renomados, dos sons encantados saídos do piano de Dona Amélia Vitória, de recepções glamorosas e, obviamente, dos animados e inesquecíveis bailes de carnaval no salão dos espelhos.

Um dos diferenciais do alvinegro, nos idos anos 1960, decorria do fato de abrir espaço para o pan-esportismo. O clube foi, por exemplo, o primeiro a ensinar judô e jiu-jítsu no Brasil.

Há ainda outras particularidades: o Rio Negro possui três hinos, algo atípico no País, um é oficial, os outros dois são a marchinha gravada em 1970 e o Galo Carijó, do Aníbal Beça, gravado em 1979.

O oficial é (ou era) executado sempre nos dias 12 de novembro, que antecedem ao famoso Porto de Honra que acontece (ou acontecia) no aniversário do clube e, também, quando iniciava e encerrava os tradicionais bailes de carnaval de segunda-feira gorda. O clube ainda possui a primeira torcida gay do Amazonas, a Galo Gay.  

O “Negão 70” mantinha (ou mantem) intercâmbio com o San Lorenzo de Almagro da Argentina e com o Fluminense do Rio de Janeiro.

Recentemente, a sua sede social, construído entre os anos de 1939 e 1942, situada na Avenida Epaminondas, entre a Rua Simão Bolívar e Ramos Ferreira, quase foi a leilão por conta de diversas dívidas, principalmente com o INSS e com a Receita Federal.

Independentemente de ser ou não rionegrino, eu nutro enorme carinho e respeito pelo clube, que diz orgulhosamente em seu hino “No Amazonas não tem igual”.

Salve o Atlético Rio Negro Clube!

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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