Reminiscências 7 meses atrás

Eu vi a Iara das águas

(…)Também havia a opção do hotel e restaurante flutuante Janauarilândia, desses todos, infelizmente, apenas o Amazon Ecopark resistiu ao tempo. Em estado de abandono e degradação ainda temos as cachoeiras do Tarumã e Tarumãzinho. Restou-nos o impressionante encontro das águas,…

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Na década de 1970, as atrações turísticas em Manaus eram a reserva Salvatore, localizada a uns oito quilômetros do centro de Manaus, cujo lago do mesmo nome guardava diversas aves aquáticas e florestais, uns poucos macacos, répteis e anfíbios, lá tinha uma doca flutuante donde se podia apreciar a fauna e a flora. A partir do “rodo”, em 30 minutos se chegava ao Amazon Ecopark, uma reserva natural privada com grande variedade de animais, o empreendimento oferecia, inclusive, curso de sobrevivência na selva. Ao lado daquele eco parque tinha a floresta dos macacos, uma área sob a responsabilidade da Fundação Bosque Viva, que cuidava de animais confiscados e abandonados. Também havia a opção do hotel e restaurante flutuante Janauarilândia, desses todos, infelizmente, apenas o Amazon Ecopark resistiu ao tempo. Em estado de abandono e degradação ainda temos as cachoeiras do Tarumã e Tarumãzinho. Restou-nos o impressionante encontro das águas, o Zoológico do Cigs  e, no perímetro urbano, o majestoso Teatro Amazonas. Hoje há novas opções de lazer para o turista que nos visita: excursões com stand-up paddle, pesca de piranhas no Rio Solimões e observação de jacarés, expedição pelo Rio Negro, aventura na selva; há o Museu da Amazônia (MUSA), o jardim botânico, o arquipélago de Anavilhanas, praias, o nado com botos, Bosque da Ciência… Mas naquela década havia, no bairro do Aleixo, a Turislândia, um lugar paradisíaco, um jardim botânico composto por árvores frondosas e gigantescas, ervas raras, plantas epífitas, aves, peixes e… Iara.

Foi em 1972, aos dezesseis anos de idade, que eu fui acompanhado do saudoso amigo Norton César Marques Pinho, pela primeira vez, a Turislândia. Norton, assim como eu, tinha o arroubo do aventureiro e a chama do sonhador. Escolhemos uma tarde em que estávamos a fim de “gazetar” aula. Juntamos as moedas destinadas a nossa merenda escolar, abastecemos o fusca azul do Seo Pinho, pai do Norton, e nos mandamos “no rumo do Aleixo”.

Paramos em frente ao Colégio Agrícola para catar alguns ouriços de castanha da Amazônia espalhados pelo chão. Enquanto os juntávamos, fiz uma singela, mas capciosa pergunta:

– Norton, tu já pensaste um ouriço desses caindo sobre a cabeça de um de nós?

Ele parou, olhou para o fusca do Seo Pinho e, como se fosse Ícaro, correu (voou) em direção ao carro. Eu nada entendi, mas o acompanhei. Entramos no veículo e saímos “zimpados”. Ainda ofegante perguntei-lhe:

– Égua! Que pressa é essa?

Lívido, mas já a dar sinais de que estava a relaxar, ele me respondeu:

– Pior seria explicar para o papai se um ouriço daquele caísse sobre o capô do fusca. Um olhou pro outro, lembramos que éramos menores de idade e o Norton não tinha licença para dirigir. Mais que isso, ele só tinha autorização do pai para circular na cidade e na cidade era incomum encontrar castanheiras.  Danamo-nos a rir sem economia, um pouco por alívio, um pouco por apreensão, só paramos quando chegamos ao destino final.

O local era de beleza superlativa, tinha o incomparável cheiro de mato, o frescor da umidade característica da nossa floresta, pássaros a voar simetricamente e a cantar cada um de per si; as generosas sombras eram um presente das enormes árvores, especialmente da samaumeira, a mãe de todas as árvores. A calma e limpidez do lago transmitia paz, as folhas que nele caiam o adornavam esplendorosamente, a lâmina d’água refletia um brilho intenso e de beleza única, nenhuma paisagem, por mais linda que seja, supera a paisagem amazônica.  

Naquele dia não havia ninguém, nem mesmo quem trabalhasse no empreendimento. Depois do encantamento inicial, passamos a disputar quem jogaria a pedra que mais vezes beijaria a lâmina d’água. Em seguida avistamos duas canoas. Nem precisou perguntar se deveríamos ou não usá-las. Cada um sentou na popa da escolhida e remou na mesma direção. Norton, muito mais “safo” que eu, logo se distanciou. Não era porfia, é que ele sabia remar, eu não. Foi então que quando olhei para a minha direita, “aquela que mora na água” pra mim apareceu. Na hora eu parei de remar na tentativa de alcançar o Norton e passei a remar em direção à deusa, tamanho o fascínio que ela me causou, indescritível. Sim, ela era uma índia de cabelos negros e longos, não vi a cor dos seus olhos, talvez pela distância, talvez porque nada havia que lhe cobrisse os seios, o que naturalmente mais chamou a minha atenção. A fantasia de que Iara só aparece nas noites de lua cheia a desvendar seu corpo para os pescadores, naquele dia se desfez. Ela estava ali, bem na minha frente a sorrir e a me chamar em sua direção. Confesso não ter visto sua metade peixe, a metade mulher me inebriou, hipnotizou, me encantou. Quando ela começou a cantar, eu fiquei em pé na canoa pronto pra me atirar nas águas do lago, no mesmo instante o Norton me chamou, queria me mostrar três ou quatro macacos que estavam a pular de galho em galho e a fazer um alvoroço danado. Olhei em sua direção, quando olhei de volta Iara não estava mais lá, havia sumido. Remei apressadamente em direção ao Norton, precisava compartilhar o que vira, mas quando comecei a lhe contar, ele disse:

– Tu é leso é? Não tá vendo que isso é fome? Esqueceste que o dinheiro da merenda virou gasolina e tá no tanque do carro?

Calei e fiquei meio abestalhado a olhar a presepada dos macacos.

Na volta eu ainda tentei tocar no assunto, mas o pensamento cartesiano do Norton cortou e aparou na mão o meu papagaio famão, a língua dele parecia que tinha cerol do Russo.

Naquela noite o sono faltou. No dia seguinte, ainda encantado, não contei o que vira a mais ninguém, imaginei que iriam me chamar de leso de novo ou me perguntariam se eu tinha fumado maconha vencida.  

Na semana seguinte eu voltei a Turislândia, dessa vez fui sozinho, não sei bem o que queria talvez me certificar de que não era leso. Entretanto era quarta-feira e isso fez toda a diferença, o lugar estava repleto de turistas. No lugar da “morenês” da Iara, a alvura das holandesas que não paravam de sorrir e tirar fotos com as suas máquinas fotográficas Rolleiflex. O lugar continuava mágico, mas a atmosfera era outra, nada comparável.

A ida até a Turislândia na semana seguinte e  o grupo de turistas de clara tez, pôs fim a necessidade do ritual de um pajé para do feitiço de Iara me livrar.  

Norton chegou a propor que um dia levássemos as namoradas a Turislândia, eu não deixei prosperar, vai que “ela” surgisse pra mim novamente.

Depois daquela visão, todas as vezes que eu vou para um sítio que tenha lago ou igarapé, ou mesmo se vou me banhar n´algum rio, ouço a voz do Norton a me chamar para ver as diabruras dos macaquinhos. Foi ele quem me salvou de ter tido o mesmo fim do índio Tapuia.

 

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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