Reminiscências 2 meses atrás

FAST X COSMOS, O MAIOR PÚBLICO DA HISTÓRIA DO FUTEBOL AMAZONENSE

A importância do evento amnesiou toda a comuna manauara – prova inconteste que o futebol é o ópio do povo –, pois, momentaneamente, esquecera que, há dias,…

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Venhamos e convenhamos interromper a esbórnia de uma noite de sábado sempre será um sacrifício supremo, quando se é jovem então, facilmente alcança o inconformismo. Mas o motivo era plenamente justificável, no dia seguinte cedo eu teria que estar de pé, para garantir um bom lugar no estádio Vivaldo Lima, o Vivaldão, atual Arena da Amazônia.  No domingo, 9 de março de 1980, eu, nacionalino roxo, seria torcedor 100% fastiano, sem hipótese de talvez. Afinal, o “Rolo Compressor” representaria o Amazonas e o Brasil, no inesquecível confronto internacional com o poderoso Cosmos, de Nova York.

O estelar time estadunidense já não contava com Pelé, que lá jogou entre 1975 e 1977, mas tinha craques como Carlos Alberto Torres (o capitão da seleção brasileira de futebol, tricampeã em 1970), Beckenbauer, Romerito, Chinaglia e o estreante Oscar, ex-jogador da Ponte Preta. Isso porque o Cosmos veio desfalcado de dois jogadores que não vieram com a delegação: o lateral esquerdo brasileiro Marinho Chagas, em negociação com a equipe do Fort Lauderdale e o holandês Neeskens, contundido.

A importância do evento amnesiou toda a comuna manauara – prova inconteste que o futebol é o ópio do povo –, pois, momentaneamente, esquecera que, há dias, sofria com mais um capítulo da secular, interminável e triste novela da falta d’água. Naquela ocasião o motivo fora um defeito técnico na Estação de Tratamento de Água.

Tal e qual os dias hodiernos, a roubalheira dominava as manchetes dos jornais locais. Por solicitação do deputado Samuel Peixoto, a Assembleia Legislativa do Estado havia formado uma Comissão Especial de Inquérito, para investigar o contrabando de couros, peles, carnes de animais silvestres e pescado, no município de Parintins, levados, ilicitamente e em grande escala, para o estado do Pará. Já em Maués, o contrabando era de ouro. Mais de 50% da produção extraída nos garimpos Rosa de Maio, Comandante Peres, Amanhã e Padauari eram desviados, sem o pagamento dos tributos legais ao estado. Certo Zezão, administrador dos garimpos, além de acusado de escravidão branca, transportava o ouro através de embarcações para Itaituba, no Pará. De lá, o elemento químico metálico nobre, era entregue a estrangeiros que lhe dava chá de sumiço.  Na capital, estouraram a toca do meliante Manoel Brás, vulgo Manoel Belota, local onde encontraram rótulos falsificados de uísque e cédulas falsas de identidade e habilitação nacional. O falsário fugiu do flagrante e deu no pé. As autoridades prometeram fechar o cerco e prende-lo o quanto antes. De fato, dias depois prenderam o trampolineiro.

O empresário e torcedor do Fast, Joaquim Alencar, o Janjão, teve maiúscula participação na vinda do Cosmos. Dizia-se ser ele amigo de Júlio Mazzei, o brasileiro treinador da equipe nova-iorquina, que teria incluído o Fast e preterido o Flamengo, por exemplo, na excursão do clube pela América do Sul; e também de Pelé, que depois da aposentadoria tornara-se o representante do Cosmos no Brasil. Para que a empreitada se materializasse, o governo amazonense a patrocinou e a inseriu na programação do 1° aniversário da gestão do governador José Lindoso. Pela apresentação em Manaus o Cosmos recebeu USD 50.000 livres de quaisquer outras despesas. Incluem-se aí, passagens, hospedagens, traslados, passeios…

A propósito do rei Pelé, há indícios de que tenha estado em Manaus sem qualquer anúncio. Teria se hospedado no Hotel Tropical, suíte 3209, acompanhado de uma bela jovem, mas preferiu ficar incógnito. O porteiro do hotel assim confirmou, porém, quando pressionado pela imprensa, negou. Clodoaldo, ex-jogador do Santos, também tricampeão mundial de futebol, amigo de Pelé e, naquele jogo, meio-campista do Fast, confirmou a sua estada aqui. Pelé teria estado em Manaus para dar as boas vindas e prestigiar seus antigos companheiros de clube. Contudo, ao que parece, preferiu ficar “preso” no quarto do hotel com a beldade. Bem, reis são de carne e osso e, se heterossexuais, não resistem às prendas de uma fêmea. Reza a lenda que a referida era daquelas que fazem “o homem gemer sem sentir dor”.

Cheguei próximo ao estádio às 11h00min, claro que com o estomago forrado do almoço antecipado, uma vez que sabia que a empreitada seria de sobrevivência, como realmente o foi. Uma coisa é chegar, outra é entrar. Essa façanha eu só consegui às 14h30min, com o Vivaldão completamente lotado. Naquela peleja de futebol, apenas os jogadores reservas a assistiram  sentados.

Não era um exercício difícil prever a superlotação. A capacidade oficial do estádio era de 31 mil pessoas, mas Fast e Emantur – Empresa amazonense de Turismo -, segundo noticiara a imprensa amazonense, teriam colocado a venda, 65 mil ingressos (45 mil arquibancada, 18 mil geral e 2 mil cadeiras), todos vendidos. Acharam pouco e convidaram cerca de 10 mil autoridades, muitas de fora do nosso estado, como foi o caso do vice-governador de São Paulo, José Marin. Além dessa insana quantidade de ingressos e convidados, muitos penetras e bicões profissionais se travestiram de autoridades e conseguiram entrar no estádio. Não, não parou por aí, acontece que o falsário Manoel Brás não era o único a atuar em Manaus, havia outros, esses, falsificaram cerca de 20 mil ingressos. Uma parte foi apreendida, o que impediu, quem sabe, a ocorrência de uma catástrofe. O presidente da Emantur, Ítalo Bianco, estimou que cerca de três mil pessoas, a portar ingressos autênticos, ficaram sem entrar no estádio.

Oficialmente foram 56.890 torcedores pagantes, recorde que permanece até hoje, mas estima-se que mais que 90 mil torcedores tenham se acotovelado naquela tarde de março de 1980. Era gente a sair pelo ladrão, inclusive em cima das marquises. Uma delas teve a sua beirada quebrada, o que resultou na queda de cerca dez torcedores, todos prontamente atendidos na enfermaria do estádio. As que tiveram ferimentos mais graves foram encaminhadas para o Pronto Socorro do Estado.

O Fast propôs um esquema de jogo demasiadamente defensivo e o Cosmos muito sofreu com o forte calor. Esses dois ingredientes foram decisivos para que o primeiro tempo do jogo fosse morno.  Esquentou quando o árbitro amazonense, Odilon Mendonça, marcou impedimento de Romerito. O atacante Chinaglia reclamou, Carlos Alberto Torres discutiu com o juiz e recebeu cartão amarelo. O “capita” enfureceu-se e partiu para agredi-lo, pronto, levou cartão vermelho. Quando, revoltadíssimo, saia do campo, o bandeirinha Jander Manoel Cabral dos Anjos achou por bem o ofender, teria dito “não falo com jogador marginal”. Carlos Alberto perdeu a cabeça e deu-lhe um pontapé e um soco. Isso tudo com o jogo paralisado aos 43 minutos do primeiro tempo, um bafafá danado. O segundo tempo continuou morno, nem o Cosmos buscou a vitória, nem o Fast soube tirar proveito de sua superioridade numérica.

O jogo terminou empatado em zero a zero. Por causa do seu temperamental comportamento, Carlos Alberto foi apenado com a perda de 10% do seu salário, além de não ter recebido a gratificação de 100 dólares pelo resultado obtido.

O Cosmos jogou com Birkenmeier, Eskandarian, Carlos Alberto Torres, Oscar e Bruce Wilson; Beckenbauer, Rick Davis, e Romerito; Seninho, Chinaglia e Mark Liveric (Nelsi Morais). O Fast  com Miguel, Carlos Alberto, Marcos, Joãozinho e Judelci; Clodoaldo, Zé Luis e Tauírio (Fabinho); Rogério, Bené e Orange (Pesado).

Para variar, houve mistério quanto a informação da real arrecadação da partida – expediente ainda hoje usado –  Fast e Emantur comeram abiu e nunca confirmaram o número exato de ingressos confeccionados, nem quantos foram vendidos. Estima-se que a arrecadação tenha sido superior a 8 milhões de cruzeiros – algo em torno de R$ 290.912,00. Nada diferente do que ocorrera com o evento anterior – Vasco x Flamengo – no qual a imprensa nunca tomou conhecimento da renda.  

É claro que os americanos não escaparam do passeio fluvial na baía do rio Negro, feito em embarcação cedida pela Jonasa; é obvio que não se furtaram de fazer uso do velho truque ilusionista da vã promessa. Juraram de pés juntos que o Fast realizaria dois jogos nas terras do Tio Sam. O clube amazonense receberia um cachê de um milhão de cruzeiros – aproximadamente R$ 36.364,00 – por jogo. A confirmação viria depois que as datas e os adversários fossem acertados; nunca veio, mas os barés, deslumbrados, se animaram, acreditaram e comemoraram. O glorioso Fast Clube jamais pôs os pés em gramados de estádios norte-americanos.

Naquela excursão do Cosmos ao Brasil os resultados foram: empate em zero a zero com o Fast, vitória por 2 a 1 sobre o Santos, na Vila Belmiro, e empate em 1 a 1 com o Uberlândia, no Triângulo Mineiro.

Ao fim e ao cabo, eu tive uma costela fraturada por cotovelos nervosos e uma unha arrancada por pisadas em meu pé, mas isso não foi nada diante da felicidade de ver um time amazonense empatar com uma equipe milionária e recheada de craques internacionais. Aquela foi a primeira vez em que a minha bexiga suportou dez horas de armazenamento sem hipótese de vazão, aquela foi a última vez em que fui assistir um jogo de futebol com previsão de superlotação.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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