Reminiscências 7 meses atrás

FÉRIAS EM PARINTINS DE UM MENINO QUE VIVIA NO MUNDO DA LUA

Quando acordei na manhã seguinte, dois assuntos povoavam a minha cabeça, o primeiro era saber se o engenheiro da Alemanha Nazista, Wernher Von Braun, pai do programa Apollo e principal responsável pela criação do foguete Saturno V, aquele que levaria os primeiros astronautas americanos para a Lua, era mesmo tudo o que um dos capítulos do livro de inglês Let´s Learn English, utilizado nas aulas do professor Waldir, no Colégio Brasileiro, dizia ser. A outra era assistir o meu Nacional enfrentar o Rio Negro e do confronto sair vitorioso.

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As férias de julho em Parintins eram ótimas. Ia para a ilha com o tio e padrinho Ubaldino Meirelles e sua esposa, tia Nazaré, o primo Thomaz, filho do casal e Armando, outro primo, esse filho da Tia Edda Meirelles e do tio Vanildo Viana. Lá ficávamos hospedados na casa do tio Antonico Meirelles, um homem elegante, alto e delgado, que estava sempre a trajar roupas de linho impecavelmente engomadas. Invariavelmente nas manhãs, tio Antonico só saia de casa depois de quebrar o jejum com café, leite, pão e um copo com dois ovos quentes, que recebiam a companhia de pedaços de tomate e queijo, sal e uma porção de manteiga. Aos doze anos de idade, prestes a completar treze, eu acreditava piamente que aqueles ovos continham a sustança responsável pela longevidade, lucidez e firmeza do tio Antonico. Era admirável vê-lo andar em passos firmes, a portar um chapéu panamá sobre a cabeça.
Na ilha Tupinambarana diversão era o tempo inteiro, de manhã jogávamos futebol no terreno de chão batido em frente à casa do tio Antonico, à sombra de mangueiras e jambeiros. Com os pés descalços e a trajar calções, o privilegiado local nos brindava generosa brisa a acariciar, permanentemente, nossos corpos seminus. De quebra, ouvíamos a sinfonia perene da correnteza do majestoso rio Amazonas a sonorizar aqueles momentos lúdicos.
Comíamos peixe com frequência. Foi lá que me apaixonei por caldeirada de bodó e de tamuatá. Havia abundancia de frutas que, aliás, pareciam ser mais doces e intensas que as que como por aqui. Eu me fartava com tantas laranjas, ingás, marimaris, tucumãs…
À tarde saíamos para passear, visitar parentes, beber garapa em frente ao mercado municipal e jogar peteleco, também conhecido como pebolim ou totó, no bar do seo Pichita Cohen. A despedida sempre acabava com um GuaraSuco bem gelado, refrigerante genuinamente paraense, com gosto de chá gaseificado, mais amargo que doce.
Quando o Sol começava a se despedir e passar a guarda para a Lua, era hora de irmos para o arraial de Nossa Senhora do Carmo, a padroeira do lugar. Lá tinha pescaria, bingo, lançamento de argola – o diâmetro da argola era pequeno o suficiente para, com muita sorte, o indivíduo ter sucesso na tentativa de encaixa-la em um dos objetos espalhados pelo chão -; tiro ao alvo com espingarda de pressão e bala de cortiça – no trajeto a cortiça variava à beça, a dificultar que o alvo mirado fosse atingido -; e a melhor de todas as opções disponíveis no arraial, aquela que eu e meus primos Armando e Thomaz, nos tornamos especialistas: chutar uma bola com o objetivo de acertar a boca de um camburão e dentro deste a bola ficar. Nosso percentual de acertos era tamanho que, na terceira noite, o dono do negócio não nos aceitou mais como clientes, continuar significaria quebrar a “firma”. Assim foi feito para a nossa tristeza e, ao mesmo tempo, para nos arrancar descontroladas gargalhadas. A festa de Nossa Senhora do Carmo em Parintins era uma maravilha.
Nos fins de semanas íamos para a fazenda do Dr. Romualdo. Só o passeio na carroceria da sua camionete já valia à pena. Saímos muito cedo, com a neblina ainda densa e um frio de bater os dentes, amplificado que era com a velocidade empreendida pelo doutor na condução de seu veículo. Na fazenda, bebíamos leite de vaca tirado na hora e comíamos queijo coalho; praticávamos remo em uma pequena canoa, víamos botos, peixes-boi e cardumes de peixes menores a passar por nós. Quando o dia terminava, nossas narinas estavam cheias de cheiro de mato, de água, estrume e felicidade. Inesquecível!
Férias não são eternas, no dia 19 de julho de 1969, um sábado, um dia antes de mais um clássico Rio x Nal, um dia antes de o homem pisar na Lua, abicávamos no Roadway, o Porto de Manaus.
Quando acordei na manhã seguinte, dois assuntos povoavam a minha cabeça, o primeiro era saber se o engenheiro da Alemanha Nazista, Wernher Von Braun, pai do programa Apollo e principal responsável pela criação do foguete Saturno V, aquele que levaria os primeiros astronautas americanos para a Lua, era mesmo tudo o que um dos capítulos do livro didático de inglês, Let´s Learn English, utilizado nas aulas do professor Waldir, no Colégio Brasileiro, dizia ser. A outra era assistir o meu Nacional enfrentar o Rio Negro e do confronto sair vitorioso.
A quinta missão espacial tripulada do Programa Apollo estava composta pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin ‘Buzz’ Aldrin e Michael Collins. Bem, se o Programa Apollo trazia consigo o número 11, a regra do futebol determina que cada time só tenha em campo 11 jogadores. Para aquele jogo os 11 jogadores do  Nacional foram:  Marialvo, Pedro Hamilton, Sula, Faustino e Téo, Mário e Rolinha, Zezé, Rangel, Pretinho e Pepeta. O Rio Negro jogou com Clóvis, Edmilson, Maravilha, Valter e Francisco, Rubens e Xerém, Anísio, Carlos Alberto, Eugênio e Paulinho.
O evento foi recheado de confusões. A primeira deu-se quando os portões se abriram; depois, durante a partida preliminar, quando um bandeirinha marcou impedimento de um atacante do juvenil do Rio Negro e, por último, quando o goleiro Clóvis, após o término do jogo, deu a volta em torno do campo com a famosa e mística toalha vermelha na mão, a fazer gestos considerados ofensivos pela torcida nacionalina. Enquanto no então Estádio Gilberto Mestrinho, hoje Ismael Benigno, eu assistia assustado brigas, confusões e prisões por causa de conflitos entre as duas torcidas, o módulo lunar Eagle (Águia) se aproximava da primeira alunagem do homem.
O Rio Negro venceu por 2 x 1. Carlos Alberto e Anísio marcaram para o clube da Praça da Saudade e Rolinha fez o gol do Nacional. O clube barriga preta mereceu a vitória e Xerém foi eleito o craque do jogo. O Naça abusou do uso da linha de impedimento e se deu mal. Chorar um pênalti não marcado pelo juiz Romualdo Arppi Filho, não mudaria o resultado.
Saí do estádio cabisbaixo, mas com o pensamento na Lua, talvez fosse um mecanismo de defesa para esquecer ou mascarar a frustração do resultado daquele jogo; talvez porque duvidasse que o homem realmente pudesse por os pés na Lua.
O público que assistiu a aquele jogo não foi divulgado. Quanto ao feito americano, especula-se que cerca de 1 bilhão de pessoas – um em cada quatro seres humanos, contingente populacional da época – viram pela TV quando, às 23h56min20s (horário de Brasília), 22h56min20s (horário Manaus), Neil Armstrong pisou na Lua.
Naquela noite eu dormi tarde, fiquei na janela de casa a olhar para o único satélite natural da Terra, a esperar que o rádio Tansglobe, do vizinho e amigo Flávio Augusto, o Papinha, confirmasse o sucesso da missão, desde a esquina das ruas José Clemente com Lobo d´Almada, fórum dos “esquineiros” da Rua da minha infância. Em determinado momento eu juntei os meus dedos indicador e médio, fechei o olho direito e, ao erguer a mão, fiz sumir da minha vista aquela apaixonante bola iluminada. Naquele instante eu, criança, me senti um gigante. Em entrevista concedida em 2007, Armstrong declarou: “De repente eu notei que aquela pequena e bela ervilha azul era a Terra. Eu levantei meu dedão e fechei um olho, e meu dedão cobriu totalmente a Terra. Eu não me senti um gigante. Me senti muito, muito pequeno.”
Não é uma questão de pontos de vista, apenas o que sentiu um astronauta adulto que, da Lua, mirou a Terra e um menino que, na Terra, ainda vivia no mundo da Lua.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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