Reminiscências 3 meses atrás

LA RIVINCITA

Essa semana eu rompi a barreira da saudade, de repente uma incomensurável nostalgia, um estado melancólico. Falta de algo, de pessoas, lugares, de momentos… Coisas que esse vírus me roubou. Para disso fugir, recorri ao baú dos escritos de antanho, encontrei essa crônica, na ocasião compartilhada somente com os atores. Não é que o banzo passou! […]

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Essa semana eu rompi a barreira da saudade, de repente uma incomensurável nostalgia, um estado melancólico. Falta de algo, de pessoas, lugares, de momentos… Coisas que esse vírus me roubou. Para disso fugir, recorri ao baú dos escritos de antanho, encontrei essa crônica, na ocasião compartilhada somente com os atores. Não é que o banzo passou!

Dia 28 janeiro de 1974, no Madison Square Garden, em Nova York, Cassius Clay fazia história ao vencer, por pontos, Joe Frazier, naquele que os promotores e a imprensa mundial convencionaram chamar de “A Revanche do Século”. Em 1979, o mundo lotava as salas de projeção cinematográfica para assistir Rocky II, The Story Continues… que no Brasil ficou conhecido como “A Revanche”, uma produção da United Artists. Naquela estória Rocky Balboa, por levantar-se primeiro, vence Apollo Creed.

A revanche do século XXI deu-se no dia 24 de maio de 2011, na Sala Monumentale del Russo, em Manaus, capital do estado do Amazonas, Brasil. Una produzione esclusiva del Consolato Italiano in Amazzonia, que dispensou a chancela de D. King, da United Artists e da Cinecittà. Essa revanche que agora também faz parte da história teve como vencedor… Bem, vou contextualizar esse episódio nos parágrafos seguintes.

Por ter sido realizado em foro privilegiado, essa cronica ficou com o título na lingua dos Cézares: La Rivincita ( A Revanche).   

Em ocasiões pretéritas o nosso caríssimo Rômulo de Paula Nunes excedeu ao nos brindar com duas maravilhosas noitadas, singelamente registradas em crônicas que subscrevi. Il Console Arnaldo Russo, o desafiado, fez ouvido de mercador na primeira ocasião; na segunda, por motivo de saúde, não compareceu, mas assimilou o golpe, a provocação fora ainda mais contundente, pronto! Dessa vez foi definitivo, o peixe fisgou a isca.

A atmosfera na Sala Monumentale del Russo era a melhor possível, Osvaldo Frota, que havia retornado de São Paulo há menos de quarenta oito horas, onde fora comemorar o natalício do filho Bruno, comentava os predicados que se descortinam a cada viagem que faz para aquela cidade quando, inesperadamente, ergueu a taça flûte transparente inundada com Moët & Chandon, variando entre 6º e 8º C – champagne que substituía o espumante Chandon que acabara de esvaziar, ambas garrafas de 3 litros. “Olha o perlage!” exclamou comparando as borbulhas de gás carbônico que eram liberadas em sua taça com Moët com as borbulhas da minha de Chandon. Era a celebração do up grade – sem dúvida as borbulhas eram menores e mais abundantes, uma característica da uva chardonnay que, nesse quesito, supera a Pinot Noir e a Pinor Meunier uvas que, junto com a chardonnay, compõem esse delicioso champagne. Mais tarde Il Console extrapolou ao servir o champagne Krug. Aí foi para acabar!

Salomão Benchimol tem uma peculiaridade que supera o apenas “gostar de música”, ele levita, a falha de San Andreas pode abrir aos seus pés e ele não se dá conta, a música o inebria de tal forma, que todo o mais para ele é nada. Dá gosto!

Clãudio Barros, o Barroso, ainda ressabiado com o pós cateterismo,  girava o copo do Chivas 18 years old on the rocks fazendo lembrar o Tavares, personagem do Chico Anysio que contracenava com a Biscoito, cujo frase de efeito era: “olha a cascavel!”. Ele estampava um sorriso que ia de ponta a ponta das orelhas, era o ambiente e a felicidade pela sua boa saúde.

Waldir Menezes, radiante da vida por haver localizado uma certa fêmea de sobrenome Tobal (muito sugestivo), homenageada em seu trabalho “Friends & Lovers”, tema deste ano do Clube do CD, fechava os olhos e balançava lateralmente a cabeça a cada música que lhe arrancava arrepios. A boa música sempre lhe arranca arrepios.

Joaquim Marinho, a grata novidade da reunião, logo percebeu que a oferta de petiscos era mais generosa que de costume, e, à medida que curtia as imagens e sons, se esbaldava nos queijos Brie, Mazda e Grana Padano, sempre acompanhados ora com ciabata, ora com o pão cuja receita é oriunda da região de Basilicata – região que ao sul faz fronteira com a Calábria – , ora com o Campagna, ora com  cascalho de fibras – uma receita exclusiva do Olivier Anquier. Iguarias como essas não se encontra no comércio de Manaus, uma pena!

Eu, compulsivo confesso, me acabei no foie gras, na geleia de framboesa dinamarquesa e numa sugestão do anfitrião que combinava o queijo Grana Padano com um miele al tartufo bianco (mel com trufas brancas) de procedência italiana e com gosto de quero mais.

Rômulo, ditoso de rever os amigos, contagiava a todos com o seu estado de graça, especialmente porque adivinhava que a noite seria prazerosa e porque sabia que os acervos de imagens que trouxera para compartilhar, contribuiriam para esse prazer, com efeito.

Em tempos de Piratas do Caribe, Il Console preferiu “navegar” nas águas do Pacífico e lá soube da existência de um tal Roberto Gamarra, o Jack Sparrow peruano. Arnaldo teve um contato virtual sigiloso com o navio do pirata peruano que, numa burla, disse que aportaria na Baía de todos os Santos, mas de fato estava ancorado no e-Bay de todos os Pecadores, e arrematou desse pirata cibernético um show com Elton John e Leon Russel, intitulado The Union, realizado no teatro da BBC, em Londres. Dessa união especialíssima os tracks que mais me emocionaram foram: Hey Ahab, There’s No Tomorrow, When Love Is Dying. Demais!   Rômulo apresentou-nos shows em DVD’s maravilhosos, com destaque para Michel Legrand y friends 50 Years of Movies & Music e as faixas How do You Keep the Music Playing, com Dionne Warwick; Watch What Happens, com George Benson; What Are You Doing For The Rest of Your Life, com Sting e a participação de Jerry Lewis como maestro em Rhapsody in Blue – no tempo do Cine Avenida, com a dona Iaiá usando o seu indefectível batom encarnado e recepcionando os amantes da sétima arte, Jerry Lewis a gente pronunciava Jerri Levis. Esse show foi gravado ao vivo no MGM Grand’s Garden Arena, Las Vegas e apresentado por Jon Voight e Jennifer O’Neill, que por sinal ainda dá um senhor “caldo”. Depois ele veio de Massimo Ranieri, Live Dallo Stadio Olimpico di Roma, aparte para Io Che Amo Solo Te, Luna Rossa e La Voce del Silenzio, com a participação deliciosa da deliciosa Silvia Mezzanotte.   Em um determinado instante Il Console não se conteve, abriu um depósito de novidades italianas e apresentou um arsenal de DVD’s brand news, lacrados, que ricevuto il giorno precedente da un membro della comunità italiana. Raros privilegiados italianos já tiveram acesso àquelas novidades. Depois disso jogou a pá de cal quando distribuiu óculos 3 D e nos presenteou com um show de Paul Carrack, cantor, compositor e multi instrumentista inglês que  integrou diversos grupos como: Ace, Squeeze, Mike and the Mechanics, e Roxy Music. Assitir Over My Sholder em 3 D foi como se eu fizesse parte da banda – quase que eu cubro as orelhas com as mãos  e participo como back vocal bicão.

Para o jantar Il Console não economizou, serviu Bacalhau Saloio (à moda do Algarves), Bacalhau com Natas (à moda alentejana) e brócolis no vapor com fios de azeite. Alias o azeite para regar essas delícias de bacalhau era um Tartufo bianco aromatizzato (trufas brancas) italiano, 0,1% de acidez. Para acompanhar um Gran vin de Bordeaux, safra 2004, La Fleur Gran Landes. Para a sobremesa dois pudins, o primeiro, eu suspeito, era feito de Dulce de leche argentino e o outro um cheesecake que, suponho, tinha a assinatura Godiva.

Meus poucos leitores devem estar na expectativa do veredicto sobre quem venceu a Revanche ou La rivincita. Devo dizer-lhes que, pelo menos para mim, não houve luta nem disputa, não era questão de vencido ou vencedor, foi um congraçamento, a celebração e a união dos pares, Arnaldo, consciente ou não, acertou quando abriu a noite com o show com Elton John e Leon Russel, de nome The Union, essa foi a tônica da rivincita, a união. 

Impossível imaginar uma batalha entre um que tem o privilégio de carregar o nome do fundador de Roma e outro cujo significado em latim é “poder das águias”. Daria empate.

Nesses encontros não se perde por pontos, nem ganha quem levanta primeiro, nesses encontros todos ganham pontos. Pontos para os dois, pontos pra nós todos. Que venham outros!

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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