Manáuseas 5 meses atrás

MANAUS JÁ FOI UMA DAS CIDADES MAIS LIMPAS DO BRASIL

Façamos um teste, esta semana, quando saíres de casa, detém-te a olhar com criticidade a tua rua, o teu bairro, a zona que resides. Aposto que encontrarás ao menos um dos problemas mais comuns que eu listo agora: bueiros sem tampa ou com a tampa quebrada; águas servidas – aquelas que provêm da totalidade do esgoto doméstico ou comercial, oriundas dos vasos sanitários, chuveiros, lavatórios de banheiro

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Basta dar-se um passeio para logo se concluir: Manaus é maltratada por seus filhos e malcuidada por sucessivos gestores municipais. E nem é preciso percorrer a periferia.

Façamos um teste. Esta semana, quando saíres de casa, detém-te a olhar com criticidade a tua rua, o teu bairro, a zona que resides.

Aposto que encontrarás ao menos um, dos problemas mais comuns que eu listo agora: bueiros sem tampa ou com a tampa quebrada; águas servidas – aquelas que provem da totalidade do esgoto doméstico ou comercial, oriundas dos vasos sanitários, chuveiros, lavatórios de banheiro, máquinas de lavar roupas, pias de cozinha… – a escorrer no meio fio, isso quando há meio fio; falta de calçamento; asfalto esburacado ou com as marcas de sucessivos remendos; tubulações com vazamento de água; esgotos a céu aberto – locais desprovidos de coleta e tratamento de esgoto e que tampouco possuem fossa séptica -; igarapés poluídos; matagal; terrenos sem muro; invasões; garagens a invadir calçadas; calçadas altas e baixas unidas em perfeita desarmonia; praças públicas privatizadas por bares e lanchonetes; ruas escuras e monturos.

Sequer completaram-se quatro anos desde que Manaus foi maquiada para receber jogos da Copa do Mundo e o asfalto e calçamento feitos estão quebrados, esburacados ou remendados. O asfaltamento das ruas de Manaus não passa de monstruosa peça em retalhos mal feitos.

Não há perdão, o que gestores e empreiteiros fazem com a cidade são crimes. É um perpétuo processo de alimentação da “usina de negócios” que enche bolsos de empresários e “servidores públicos”, com o aval do prefeito da vez. É vergonhoso! Manaus causa náuseas, Mana náuseas, Manáuseas.

O circulo vicioso não sofre solução de continuidade, é uma equação muito simples: o eleitor tem memória curta e não se importa de eleger ou reeleger canalhas juramentados, ainda que estes tenham malversado recursos públicos, ainda que já tenham feito o desserviço de maquiagem na sua rua ou bairro.

Esses caras-de-pau, por suas vezes, voltam como se nada tivessem feito de errado, às vezes como salvadores da pátria.

Há ainda as empreiteiras vencedoras de licitações públicas, corruptoras que não têm compromisso com o que possa suceder com as obras por elas executadas, n’ algumas vezes compostas por materiais de péssima qualidade e resistência. Sabem que em duas ou três gestões posteriores poderão concorrer, vencer e refazer o seu mal feito.

E pensar que essa cidade cheia de mazelas já foi uma das cidades mais limpas do Brasil.

Harry Cant e Katherine Harper, ele escocês de Edimburgo, ela americana de Illinois, depois de se conhecerem em Belém, se encontrarem em Porto Velho e se reencontrarem em Manaus, decidiram se casar.

Harry naturalizou-se brasileiro e o casal buscou um meio de garantir a sua subsistência. Sem qualquer esforço enxergaram na sujeira da cidade, uma porta escancarada para ganharem a vida.

Em 1947, o casal pleiteou do governo do estado do Amazonas o serviço de limpeza pública dos subúrbios de Manaus, exatamente nas áreas onde os lixeiros não passavam. Nascia, assim, o “Serviço de Limpeza de Manaus”, um dos mais curiosos do mundo, feito por mulheres, “as mulheres do lixo”.

Em janeiro de 1948, há exatos 70 anos, o “Serviço de Limpeza de Manaus” firmava contrato para a execução dessa tarefa, a utilizar métodos então desconhecidos, baseados no princípio de que “mais limpo o auxiliar, mais limpo será o seu trabalho”. Por essa razão o fardamento de todos os funcionários era branco, a copiar o sistema nova-iorquino com os “White Wings” (Asas Brancas).

A camionete branca dirigida por Katherine, uma ruiva, simpática, de olhos azuis a trajar seu macacão branco e limpo e boné da mesma cor, com aba verde, transportava as “mulheres do lixo” e as distribuía pelos quatro cantos da cidade. Brancos também eram os carros que recolhiam o lixo.

Em reconhecimento, o governador Leopoldo Neves rescindiu o contrato do então encarregado da limpeza urbana e o entregou ao casal Harry Cant.

A cidade que antes recebia a varrição de homens com idade avançada, muitos deles aposentados oriundos de outras repartições públicas, foram substituídos por mulheres, a seguir ao princípio dominante nos lares domésticos.

Superadas as desconfianças, caçoadas e receios, em pouco mais de um ano, as moças transformaram a suja cidade, em uma das capitais mais limpas do Brasil. Nunca se viu Manaus tão limpa.

Mas aí vieram novos gestores com novas “filosofias de trabalho”, com “mudanças estruturantes”, “choques de gestão”, “reengenharias”, “arrumação de casa”… Cada um a dar o título sugerido pelo marqueteiro da vez. E a violenta e violentada Manaus que bem conhecemos, voltou à sua condição de Manaúseas. Que tristeza!

The end.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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