Reminiscências 7 meses atrás

O BUG DO MILÊNIO

O medo até não podia ter razão de ser, mas o pânico que se espalhou pelo globo reclamou medidas preventivas em todo o mundo e teve um custo de cerca de US$ 300 bilhões.

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No dia 31 de dezembro de 1999, o mundo fechava as portas do século XX e dava as boas vindas ao século XXI. O Brasil, diferentemente das tragédias ocorridas na Europa e Ásia, a despeito de algumas turbulências, no geral, passava tranquilo com o seu “formoso céu risonho e límpido”. Além disso, o País consolidava como realidade insofismável a sua democracia e a globalização dos mercados.
Naquela data também era deixada para trás o chamado século da relatividade. É que no dia 19 de maio de 1919, a partir de fotografias tiradas de um eclipse do Sol na Ilha do Príncipe, nas costas da África Ocidental, e em Sobral, no Ceará, ficava comprovada a veracidade da Teoria Espacial da Relatividade de Einstein a qual, junto com sua Teoria Geral, revolucionou a ciência e mudou a ideia que se fazia do Universo, desde Newton.
Na política, o século findava com a “fidelidade” entre o Partido da Frente Liberal (PFL) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), a assegurar a aprovação de projetos do governo Fernando Henrique Cardoso. Já Brizola, tratava de decidir se afastava ou não o Partido Democrático Trabalhista (PDT), do Partido dos Trabalhadores (PT), nas eleições que ocorreriam em 2000. Essa decisão significaria o rompimento de uma aliança mantida entre os dois partidos desde 1998. A queixa de Brizola era que o PT queria ser apoiado por outros partidos, mas não apoiava partido nenhum.
No Rio de Janeiro, o sempre badalado réveillon que há anos ocorre na praia de Copacabana, atraiu um sem-número de cariocas e turistas nacionais e estrangeiros. Lá esteve FHC, que não escapou das vaias de significativo número de presentes.
Em Nova York, acredite se quiser, a expectativa era saber se Jennifer Lopes e seu namorado, o rapper Puffy Daddy, que haviam sido presos por causa de uma briga em uma boate uma semana antes, fariam as pazes naquele réveillon.
Em Manaus, o Réveillon das Cores na praia da Ponta Negra teve, pela primeira vez, a cobertura da festa feita pela Rede Amazônica de Televisão. O show pirotécnico foi o momento mais esperado e emocionante para aqueles que para lá foram apreciar, da praia, dos condomínios, do Hotel Tropical ou das muitas embarcações paradas em frente ao anfiteatro. Em um desses barcos, estava o então deputado federal Artur Neto.
O meu réveillon foi muito animado e contou com a presença de parentes e amigos queridos. A área da piscina estava cheia de mesas, cadeiras, comidas, bebidas, brindes, harmonia, sorrisos e felicidades. O mais feliz de todos, naquele que foi o primeiro e último réveillon em sua casa, era o meu pai, a trajar branco da cabeça aos pés e a cantar as marchinhas tocadas pela banda de músicos da polícia militar.
Naquele dia 31 de dezembro de 1999, havia o temor de que as previsões tenebrosas para a virada do século se concretizassem causando transtornos estupendos: era o bug do milênio. Dizia-se que os computadores da época poderiam não entender a mudança e causar uma pane geral em sistemas e serviços. A tese era que desde os anos 1960, usavam-se calendários internos com dois dígitos. Assim, após o ano 99, viria o 00 e as máquinas poderiam entender como 1900 ou como 19100, e não como 2000. O uso de apenas dois dígitos era para diminuir o número de dados e ocupar menos espaço na memória limitada e cara das máquinas.
O medo até não podia ter razão de ser, mas o pânico que se espalhou pelo globo reclamou medidas preventivas em todo o mundo e teve um custo de cerca de US$ 300 bilhões.
Para que se tenha uma ideia, em Nova York, durante o réveillon, a segurança foi tamanha, que as caixas de correio foram retiradas das ruas pela polícia e as tampas de esgotos foram seladas. A expectativa era que 2 milhões de pessoas acompanhassem a contagem regressiva. Atiradores de elite se posicionaram em pontos estratégicos; kits de sobrevivência, compostos de lanterna, água e biscoito, foram vendidos a USD 10,00; e, ainda, inúmeros voos programados para a meia-noite foram cancelados.
Havia o temor que os sistemas de aeroportos e usinas nucleares entrassem em colapso e provocassem quedas de aviões e vazamentos de material radioativo; nas grandes cidades havia o medo que saques bancários se multiplicassem e as ruas ficassem sem qualquer segurança; os sistemas dos bancos poderiam entrar em colapso e as informações sobre os bens dos clientes se perderiam; os bancos quebrariam e, com eles, toda a economia; os sistemas de fornecimento de água e luz já eram computadorizados, principalmente nos países desenvolvidos, assim, pessoas acreditavam que poderiam ficar no escuro, o que significaria caos geral no comércio e no trânsito, especialmente no transporte público com sistemas computadorizados, como trens e metrôs.
As recomendações do Banco Central brasileiro eram de que ninguém estava autorizado a coletar informações suas e/ou de sua conta; se alguém ligasse pra você informando que sua senha foi modificada por causa do bug e pedindo para que fosse digitada a senha antiga, seria um golpe e não deveria ser atendido; o correntista deveria ligar imediatamente para o seu banco; para evitar a ação de fraudadores, o correntista não deveria fornecer número de cartões ou senhas a ninguém, tanto pessoalmente quanto por telefone, nem para parentes, pessoas de confiança ou funcionários de banco; o BC recomendava, ainda, que não havia necessidade de retirada de dinheiro antecipadamente só por conta do bug; alertava que os cheques e cartões bancários continuariam válidos no ano de 2000, pois os cartões tinham a data de validade nele impressa; também não havia necessidade de solicitação de cheques ou cartões adicionais, porque os cheques pré-grafados com 19.. continuariam sendo compensados e aceitos normalmente no mercado.
As projeções macabras não se materializaram. O que houve foram apenas falhas pontuais, como em terminais de ônibus na Austrália, em equipamentos de medição de radiação no Japão e em alguns testes médicos na Inglaterra. Fora isso, apenas uns poucos sites, em todo o mundo, entraram o novo milênio a apresentar a data 1/1/19100.
Não houve necessidade de plano de contingencia e o Banco Central não precisou utilizar R$ 7 bilhões em papel moeda a mais, que havia mandado a Casa da Moeda imprimir ao longo de 1999, como garantia, caso houvesse aumento no volume de saques na virada do ano. Relativamente ao temor por um colapso no setor de abastecimento de energia, o Governo aumentou o esquema de monitoramento por satélite para acompanhar os acontecimentos em outros países, e colocou 13 mil funcionários de plantão na virada do ano. Dessa maneira, o Brasil, assim como a grande maioria dos países, passou lépido e fagueiro pelo bug.
Bug, para mim e para a minha família, ocorreria no novo milênio, no exato dia 27 de maio de 2000, quando o meu pai prematuramente partiu. A imagem dele com os braços sobre os ombros de minha mãe, a brincar e cantar marchas de carnaval é tão emblemática, que eu deixei de trajar branco nos réveillons seguintes.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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