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O CABOCO DE APELIDO DEIXA JÁ

Doutor Feliciano Junqueira Tapajós, homem letrado, lá das bandas do Ceará, aportou por aqui há uma semana ou pouco mais. Queria conhecer um pouco do Amazonas e saber mais sobre os jacarés da Amazônia.

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Doutor Feliciano Junqueira Tapajós, homem letrado, lá das bandas do Ceará, aportou por aqui há uma semana ou pouco mais. Queria conhecer um pouco do Amazonas e saber mais sobre os jacarés da Amazônia. Fretou uma lancha e foi conhecer a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá. Por um acaso, conheceu e conversou com o caboco Deixa Já. Eis o resumo:

Doutor Tapajós: O senhor sabia que o abate de jacarés no Amazonas está autorizado pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas- Ipaam, desde junho?

Deixa Já: Sim, Dotô, mas não dá pé, amazonense não come carne de jacaré.

Doutor Tapajós: Sério!? Então exportar é a solução?

Deixa Já: Né não.

Doutor Tapajós: Como não?

Deixa Já: Poucos frigoríficos daqui têm tal de SIF(Selo de Inspeção Federal), isso é condição principal.

Doutor Tapajós: Que lamentável e inacreditável! Mas tem o couro, que é valiosíssimo no mercado internacional.

Deixa Já: Dotô, aqui não tem curtume pra processar, deixa já!

Doutor Tapajós: Mas nos anos 1960 eu sei que tinha. Que lástima! Que retrocesso! Que triste agenda!

Deixa Já: Né mentira não, o Dotô tem razão.

Doutor Tapajós: Será que um dia o amazonense ainda aprenderá a transformar o jacaré em fonte de renda?

Deixa Já: Olhe, Seo Dotô, aqui tem uma superpopulação de jacarés que desequilibra a natureza, né? Cabocos e jacarés comem peixe. O que eu chamo de porfia, o Dotô chama de contenda. Quero dizer que quando o peixe escassear, o jacaré será fonte de renda.

Doutor Tapajós: Interessante a sua tese.

Deixa já: Né não, Dotô, o que digo não tem ciência, é questão de sobrevivência.

Doutor Tapajós: Sua sabedoria é surpreendente.

Deixa Já: Deixe disso, Dotô, sou só um caboco sem dente.

Doutor Tapajós: Deixa Já, o senhor sabe me dizer se houve alguma tentativa de exportar carne e couro de jacaré?

Deixa Já: Sei sim, segundo o meu cálculo foi nos primeiros dez anos deste século. Foi abate experimental, 40 bichos no total, outros dez foram vivos pra capital. Os couros para curtir, foram mandados para fora daqui. A carne foi distribuída aos bocados em vários supermercados. O que aconteceu? Apodreceu. Ninguém comprou e a experiência acabou.

Doutor Tapajós: E o que ocorreu com os jacarés trazidos vivos?

Deixa Já: Ficaram agitados, irritados, os dotores chamaram de estressados. Aí, quando foram mortos e destripados, os dotores dizem eviscerados, a carne havia estragado. Por isso que eu sempre digo e repito, deixa já!

Doutor Tapajós: É difícil concordar e aceitar com essa passividade, essa cultura do deixa já. Décadas de estagnação, décadas sem sequer poder fazer o manejo do jacaré, acabou por não capacitar a população amazonense a transformar o jacaré em excelente fonte de renda.

Deixa Já: É como eu lhe disse antes, Dotô, deixa já!

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Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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