Era uma vez... 5 meses atrás

O MONUMENTAL TERREIRÓDROMO DOS MANAÓ

A tribo Mendes Curumins mandou para a tribo Manaó uns índios especializados e pediu ajuda de outra tribo independente para ter uma opinião final sobre o ocorrido. O presidente do Creo (Conselho Regional de Edificação de Ocas), Aga Menor, disse que o desabamento foi provocado por “erro de cálculo estrutural” …

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Era uma vez…

Às margens do Rio Negro se localizava a aldeia dos Manaó, uma tribo ordeira, simpática e acolhedora. De quatro em quatro anos os índios que lá habitavam escolhiam um novo cacique, que os chefiava pelo mesmo período. Reza a lenda que em um dia chuvoso, de um ano impreciso, um raio caiu sobre a aldeia e, a partir de então, os índios da tribo foram condenados à maldição de escolher caciques megalomaníacos.

Há muitas luas os índios daquela tribo tomaram um chá alucinógeno, feito de folhas de enxerimento. A “viagem” levou-os a supor que um ritual lá realizado, sempre no mês de fevereiro, era tão esplendoroso, mas tão esplendoroso, que só perdia para o ritual dos imbatíveis índios Cariocas, deixando para trás todas as demais tribos do Pindorama.

A “viagem” não poupou ninguém, nem mesmo o cacique Tucuxi, que se aproveitou da “nóia” coletiva e transformou-a em “oportunidade”. Para comemora-la, degustou uma porruda cuia de chá de erva superfaturada. Ora, pensou ele, se os Cariocas têm um Terreiródromo gigante, por que nós não? A surfar na onda psicodélica, o cacique encomendou estudo para a construção do Terreiródromo dos Manaó.

Uma coisa era certa, não seria uma obra “gitinha”, seria tão grandiosa quanto a construída pelos Cariocas, concebida em 1984, com 700mt de extensão por 13mt de largura e capacidade para acolher 72.500 índios.

O estudo primitivo do Terreiródromo dos Manaó era espetaculoso: 146 mil m², pista com 480 metros de comprimento e capacidade para 170 mil índios, ao custo de 42 milhões de folhas verdes, oriundas de uma árvore das longínquas terras onde habitava a nação Gringolândia.  

Passados alguns dias, o cacique se convenceu que reduzir a pista para 405mt e a capacidade de acomodação para 100.000 índios, não seria menos megalômana e ainda lhe daria, no quesito acomodação, a primeira posição, com folga, na classificação da nação Brasilis, da qual a aldeia Manaó pertencia. Todavia, a área construída permaneceria com 146 mil m².  Pronto, estava aprovado o estudo realizado pelo índio Cé Sar Ferra Ge Ral.

A construção ficou aos cuidados do índio Pávulo Girar Di, que anos depois, só de pavulagem, pediria a índia branca Xuxu Xaxa, da tribo dos Pampas, em casamento. Dela, Pávulo recebeu um não com direito a sonoplastia plim plim.  

Por se tratar de obra monumental e não ter qualquer experiência anterior, Pávulo Girar Di, da tribo ComaComa Agi, associou-se aos índios da tribo Mendes Curumins.

Desde o início de sua construção, em outubro de 1991, o Terreiródromo foi alvo de denúncias de superfaturamento e outras irregularidades. O barulhento guerreiro Zheron Bezerro Desmamado, por exemplo, protestou e entrou com recurso no Tribunal Indígena de Contas, a requerer fossem apuradas supostas irregularidades no processo de escolha da pequena tribo ComaComa Agi.

Zheron Bezerro Desmamado afirmava que o custo final da obra havia sido 62 milhões de folhas verdes, Pávulo sustentava que fora 42 milhões e o cacique Tucuxi jurava que tinha sido “apenas”32 milhões de folhas verdes. Lamentavelmente esse festival de informações desencontradas e o mistério sobre quem estava a dizer a verdade, não foi explorado como  enredo-ritual de qualquer dos grupos de dança do local.

O Monumental Terreiródromo dos Manaó, que também abrigava a oca escolar de Artes e Ofícios índio Klaudió Santo Toro, foi pré-inaugurado em três ocasiões: em 1991, quando a pista  já estava pronta – naquele ano não houve o ritual dos grupos de dança, apenas festa com batuques de um rito Fre Vo originário da tribo Penambucocos -; em 1992, somente com a ferradura – os dois primeiros lances de arquibancada -; e, em 1993, quando já haviam sido construídos mais dois lances de arquibancada. Finalmente em 1994, foram concluídos os outros quatro lances de arquibancada, a totalizar seis.

Foi exatamente em 1994, que três fatos ocorridos por obra e graça do Terreiródromo, chamaram a atenção da aldeia: o pagamento de 7 mil folhas verdes como “agrado” para a índia mameluca de nome Va Leria Val  Lenssa, mais conhecida como “Plimplimbeleza”, aparecer como madrinha de um grupo de danças; o desabamento da cobertura de palhas galvanizadas de 18 mil m² que cobria, em forma de meia lua, a arquibancada D do Terreiródromo; e, finalmente, o aborto da candidatura a cacique de um jovem e promissor índio.

A quase tragédia ocorreu no dia 19 de abril, quando a estrutura construída não suportou o peso de 800 toneladas de palhas “galvanizadas” e, às 21h: 50, desabou, a provocar pânico nos mais de 500 índios que estudavam na oca escolar índia Li La Borgessá, que funcionava nas 26 ocas conjugadas da ferradura.  Feriram-se 25 índios, mas felizmente nenhum morreu.

Na lua seguinte estava combinado que haveria um encontro de índios Adventistas do Sétimo Dia. Para aquele evento esperava-se a presença de 20 a 30 mil índios. Poderia ter sido uma tragédia sem precedentes na aldeia Manaó, mas, acreditaram os índios, por intervenção de Tupã, o desabamento foi antecipado.

A inesperada ocorrência provocou um chilique no cacique Tucuxi, afinal, aquela era sua grande obra. Ainda abalado, mas a tentar acalmar a tribo, afirmou que só o resultado de uma rigorosa fiscalização indicaria se houvera negligência dos índios da tribo Mendes Curumins, subcontratada pela tribo ComaComa Agi, para fazer a cobertura.

A tribo Mendes Curumins mandou para a tribo Manaó alguns índios especializados e pediu ajuda de outra tribo independente para ter uma opinião final sobre o ocorrido. O presidente do Creo (Conselho Regional de Edificação de Ocas), Aga Menor, disse que o desabamento fora provocado por “erro de cálculo estrutural” e levantou a hipótese de a estrutura de base não ter suportado o peso da cobertura, por ele estimada em cerca de 100 toneladas.

A conclusão dos índios vindos da tribo das Alterosas e, principalmente, da tribo Sampa, culpou a tribo Mendes Curumins, que assumiu a responsabilidade e se comprometeu a refazer a cobertura com material mais leve. Mas, como palavra dessa categoria de índio é que nem de papagaio falador, que se põe a repetir palavras sem saber o seu significado e importância, ficou o dito pelo não dito.

Cacique Tucuxi também prometeu reconstruí-la, entretanto, depois se esquivou e silenciou para sempre. Assim, a estrutura que custou 6 milhões de folhas verdes nunca foi refeita e a meia lua desapareceu do projeto original.

Apesar de o comprovado custo do metro quadrado ser de 350 folhas verdes, o cacique Tucuxi pagou, sem reclamar, 4.032,52 folhas verdes, um superfaturamento denunciado de 1.154,15%.  Alguns índios muito próximos ao cacique viraram réus e foram condenados a devolver essa diferença, além de Pávulo Girar Di que, sem qualificação,  “ganhou” a obra de tamanha envergadura, sem concorrência.

O jovem índio Sério Caloso que, supunha, seria candidato a cacique apoiado por Tucuxi, teve sua candidatura retirada e seu sonho acordado. Tucuxi não apoiou ninguém e deixou o caminho livre para que o índio Negão se tornasse cacique.

Durante os quatro anos de governo do cacique Negão, os assuntos desabamento, reconstrução e indenização foram “esquecidos” e a apuração congelada. Em 22 de janeiro de 2009, sem alarde, o Tribunal Indígena de Contas deu o assunto por encerrado.

Reza a lenda do lugar que caciques sempre se desentendem, contudo, dependendo dos interesses, sempre voltam a se entender. E assim, os pobres e amaldiçoados Manaó, giram perpetuamente a “roda do destino”.

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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