Reminiscências 1 ano atrás

Os cem anos da tia Zé

vida da Tia Zé é um belo romance, a comemoração dos seus cem anos de existência teve o verniz e as cores que ela merecia. E ganhou beleza ainda maior, adornada que foi por sorrisos, afagos, alegria e rostos felizes.

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Ainda muito menino, em idade escolar, meu pai, Luiz Bezerra de Menezes, saiu do seringal Nova Olinda, em Canutama, no rio Purus, e veio para Manaus com o propósito de estudar. Aqui, sua tia Maria José Mesquita, a tia Zé, lhe deu guarida e educação exemplar. Relativamente à disciplina, Tia Zé era rígida mesmo sem nunca ter lido o código de Licurgo (dos espartanos), isso fez do meu pai um homem corajoso; e ateniense no que se refere a moral, isso o forjou um cidadão honrado. Depois, feito um sabiá, papai voou, morou em república de estudantes e também com o tio Abner Dantas – este criado como um filho pela tia Zé – até casar.

Meu pai por ela nutria respeito, admiração, amor e gratidão, sua retidão de caráter foi o espelho que ele escolheu mirar e seguir.

Por muitos anos nós, os “filhos do Luiz”, fomos à casa da Tia Zé, na Vila Brasil, lá na Rua Luiz Antony. Íamos aos seus aniversários, natais e fins de ano. Não há como esquecer os sons das batidas nos postes de ferro, para anunciar a chegada do novo ano. Eu e Cadinho adorávamos aquele momento de protagonismo, saíamos discretamente, surrávamos o poste que tinha quase em frente à vila e voltávamos com caras de meros expectadores, a Lolô era cúmplice. Tia Zé nunca soube dessas traquinagens, nem o papai.

Durante o tempo em que trabalhou nos Correios, ela foi funcionária exemplar. Extremamente organizada, sua casa sempre foi um primor de arrumação e higiene, chamavam nossas atenções o brilho dos móveis, das louças dos copos e do piso.

Meus irmãos guardam essas mesmas doces lembranças, mas o Cadinho, que teve o privilégio de com ela e Vovó Áurea viajar até o Velho Mundo, conta que, naquele ano de 1997, ele comia feito um glutão. Qualquer das refeições que fizesse era insuficiente, então passou a “secar” os pratos das duas. De nada adiantou, elas tinham ótimo “desempenho” com talheres e bocas. Diante do insucesso, sua “broca” só aumentava, então bolou o plano B, o qual consistia em repetir, feito um mantra e sempre na hora das refeições, a seguinte recomendação: “Vovó e tia Zé, quando vocês já estiverem satisfeitas, não precisam exagerar, deixem as sobras no prato, comer muito pode lhes fazer mal”. Elas faziam ouvidos de mercador, não davam a menor importância e continuavam a comer tudo e sem pressa. Naquela viagem meu irmão passou baixo no quesito alimentação, poucas vezes elas deixaram sobras nos pratos, quando deixaram, ele se fartou.

Sábado, enquanto ouvia a todos que se manifestaram com ternura, emoção e espontaneidade, especialmente o filho varão do primo Leonardo, eu olhava fixamente para o banner que exibia a fotografia da tia Zé e o ano em que ela nasceu. Nesses dias em que só ouvimos pessoas a dizer que “tá russo”, foi impossível não associar aquela data a Revolução Russa e ao ocaso da Primeira Guerra Mundial. Depois me lembrei de outras guerras e tragédias ocorridas posteriormente, parei no Maracanazo, ocorrido em 1950. Parei porque a noite era de alegria, não de tristeza, porque a poesia da ocasião me remetia à gratidão, privilégio e amor; lembrei-me de “Cem anos de Solidão” do Gabo García Marques e da sua fictícia Macondo, um lugar sem lugar, a América Latina condensada em uma vila onde tudo acontece. A Igreja do Evangelho Quadrangular da Nova Cidade foi o local do abençoado evento, foi lá que tudo aconteceu.

A aniversariante estava elegante e cheirosa, como sempre. Respondeu a todas as perguntas que lhe foram dirigidas, cantou sozinha e com a afinação peculiar a família. E sorriu, com a

tranquilidade de quem cumpriu sua missão.

A vida da Tia Zé é um belo romance, a comemoração dos seus cem anos de existência teve o verniz e as cores que ela merecia. E ganhou beleza ainda maior, adornada que foi por sorrisos, afagos, alegria e rostos felizes.

Parabéns, tia Zé!

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Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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