Reminiscências 3 meses atrás

1975

Um dos anos mais emblemáticos de toda a minha existência foi o de 1975. Havia chegado a hora de decidir que caminho profissional deveria seguir. Filho de um profissional de excelência, advogado de notável saber jurídico, papai era admirado por seus pares e respeitado por seus concorrentes. Era fascinante vê-lo, madrugada a dentro, a usar […]

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Um dos anos mais emblemáticos de toda a minha existência foi o de 1975. Havia chegado a hora de decidir que caminho profissional deveria seguir. Filho de um profissional de excelência, advogado de notável saber jurídico, papai era admirado por seus pares e respeitado por seus concorrentes. Era fascinante vê-lo, madrugada a dentro, a usar tão somente os dedos médio e indicador, em sua máquina de datilografia Olivetti Lettera, a produzir preciosas peças jurídicas. Luiz Bezerra de Menezes era o espelho perfeito. Quanto a mim, sobrava-me orgulho, mas falta-me significância intelectual para abraçar o Direito com a mesma primazia, devoção e competência. Aliado a isso, acompanhava-me a perniciosa reticência que me complexava e torturava na mesma medida. Até me submeti ao modismo do teste de aptidão, mas em nada me ajudou, revelou-me o que eu já sabia: as áreas das Ciências Exatas e Ciências da Saúde não eram pra mim. Restaram-me a carreira militar e as demais Ciências Sociais. A primeira não teria a benção do papai, assim, optei por prestar o vestibular para o curso de Administração de Empresas. Descortinar-se-ia um ano de pugna – eu X estudo. O distanciamento que mantínhamos – eu e o estudo –  era muito maior que esse que a OMS recomenda para que a humanidade evite o contágio do vírus chinês, que está a nos prender em casa. Isso faria de 1975, um ano de “sacrifício”. Teria eu que estudar matérias que abominava. Deixei o Colégio Brasileiro após seis anos e me matriculei no Colégio D. Bosco, onde me seria oferecido um combo: cursinho pré-vestibular e o terceiro científico, hoje terceiro ano do ensino médio. O cursinho era o Boechat, tão bem conceituado quanto o concorrente, o Vector.  

Além dos estudos obrigatórios de matérias curriculares, eu tinha que ler os jornais diariamente, qualquer matéria poderia ser quesito de prova ou tema de redação. Por exemplo, a audaciosa operação perpetrada por tropas israelenses, na madrugada do dia 06 de março, ao invadir o Hotel Savoy, em Tel Aviv e resgatar quarenta reféns em poder de um comando palestino. Era mister me inteirar sobre o tema que dividia opiniões: a legalização do divórcio. De um lado, a igreja católica a propugnar pela indissolubilidade do casamento, em detrimento do que realmente era essencial, a finitude do amor entre os unidos por matrimônio; de outro, o clamor da sociedade, especialmente dos desquitados, legalmente impossibilitados de usufruir do direito de constituir nova família. Também era preciso construir opinião sobre as consequências da decisão do Conselho Monetário Nacional, que resultou na Resolução nº 319, do Banco Central, ato normativo que atentava contra a Zona Franca, posto que reduzia em 50% o comercio livre de Manaus.

Entre notícias de jornais, livros, revistas e matérias curriculares obrigatórias, tinha os problemas insolúveis de Física, propostos nas aulas do professor, amigo e vizinho, Arnaldo Russo; aulas inesquecíveis do querido professor de História, Raimundo Theodoro Botinelly Assumpção, como aquela teatralização da extraordinária obra da literatura universal, Ilíada e Odisseia; fórmulas imemoriáveis de Matemática e Química; e, finalmente e igualmente inolvidável, as dicas do vernáculo, passadas pelo saudoso professor de Língua Portuguesa, o grande advogado e peladeiro, como eu, das tardes de sábado no banho do José Nasser, Edson Oliveira.  

Em janeiro daquele ano, o amigo Manoel Ribeiro, o Maneca, tinha deixado o Colégio Militar de Manaus e ingressado na Escola Naval, no Rio de Janeiro. Em dezembro de 1975, seria a vez do Bide seguir os passos do Maneca e, a partir de janeiro de 1976, iniciar seus estudos na Escola Naval. Claudio Barros Gomes, o Barroso, entraria na Academia Militar das Agulhas Negras-AMAN. Por fim, o Maca, partiria também para o Rio e lá passaria no concorrido vestibular para o curso de Zootecnia, na UFRJ. Na ilha do Fundão, Maca reencontraria o amigo Frederico Biváqua de Araújo, o Fedê, que no Rio já residia. Assim, naquele ano, minha turma sofreria significativos desfalques, jamais dissolução. “Quando um muro separa, uma ponte une”, verso da música Pesadelo, de Paulo César Pinheiro, tantas vezes por nós entoada, encerra o significado dessa amizade.

Com tudo isso e mais a quase obrigatoriedade de passar no vestibular, eu não abria mão do lazer.   Na semana Santa, embora muito a sentir a súbita ausência do amigo Hamilton Jorge da Gama Henrique, o Bide, fomos a Itacoatiara eu, Ariosto Lopes Braga Neto, Norton César Marques Pinho, Antônio Claudio Uchôa Izel, o Maca, e José Wilson dos Santos Meirelles. Na ida o assunto predominante não poderia ser outro, se não o motivo pelo qual o Bide não fora: uma cirurgia em decorrência da indigerível suspeita de câncer no fígado. A estúpida especulação felizmente não se confirmou. O resultado do exame feito em São Paulo, após análise do pedaço extraído de seu órgão e para lá enviado, atestou negativo. Conclusões obvias: a Semana Santa era igual em qualquer cidade cristã do mundo e o Bide mais uma vítima a engrossar a estatística da claudicante Medicina Baré, dos anos 1970.   

De volta ao noticiário dos jornais, o tema relevante era a grande extensão territorial e a baixa densidade demográfica do Amazonas, a fazer com que a divisão do estado estivesse na pauta do governo federal. As regiões do Alto Rio Negro e Alto Solimões, tornar-se-iam novos estados.   

Pausa para o lazer. Em agosto houve uma confraternização no Clube Tucunaré, ao lado do Mucuripe, na então Paraíba V8, hoje Av. Ephigenio Salles. Teve churrasco, bebida, cantoria, futebol, muitas risadas e um trágico fim. Após o divertido encontro, parte do grupo decidiu dar uma volta de carro na Ponta Negra e Tarumã, divididos entre a Variant do Norton e a Rural do Iomar Junior. A Rural capotou e todos se feriram com maior ou menor gravidade. Gutemberg de Castro Johnson, o Gugu, não resistiu e veio a óbito. É inefável a dor da perda de quem bem queremos, Gugu era um ser humano puro, boníssimo, raro, um exemplar em extinção.    

Via rio Papuri, noticiavam os periódicos, chegava aos índios do Alto Rio Negro uma cachaça colombiana. Sua mistura com caxiri, bebida feita a base de mandioca e consumida durante as festas tradicionais, dava uma lombra tão grande, que os silvícolas brigavam entre si, um já havia morrido. A embriagues na comuna de Manaus decorria da ausência de um prefeito. Aguardava-se a volta do recesso da Assembleia Legislativa, para que essa apreciasse tão importante agenda: a aprovação da mensagem do governador Henoch Reis, a indicar o nome do Coronel Jorge Teixeira. Sob o comando do líder Fábio Lucena, a bancada do MDB infligiria ao prefeito recém empossado, sua primeira derrota na Câmara Municipal, o projeto de lei do Teixeirão, como era conhecido o Coronel, que criava a Taxa de Pavimentação e Calçamento, teve barrada a sua tramitação. 

O ano de 1975 só terminaria no dia 21 de janeiro de 1976, quando eu deixaria de ser refém dos  únicos sonhos que povoavam o meu sono: fórmulas, dicas, macetes, noticiários de jornais…

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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