Crônica 8 meses atrás

A VAZANTE DO RIO NEGRO E A SECA DE GOLS DO FLUMINENSE

Que o ano termine para o time do meu coração, como começou o inverno amazônico, chuva em abundância (de gols a favor, é claro). Amém!

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A chuva que castigou Manaus no dia 28 de novembro anunciou, definitivamente, a chegada do inverno amazônico. Começou a temporada que se prolonga, em média, por seis meses. Ao fim, conheceremos as suas consequências para os moradores das áreas de risco, para os heroicos motoristas que se arriscarão a trafegar nas esburacadas e alagadas ruas de nossa capital e, finalmente, para os nossos sofridos irmãos ribeirinhos.
Ao ouvir os barulhos da chuva, dos relâmpagos e trovoadas, entre uma taça de vinho e um gol do Atlético Paranaense, algoz do meu medíocre Fluminense, me veio a reflexão sobre o destaque maior que se costuma dar às enchentes que às vazantes, embora a segunda seja tão problemática quanto à primeira. Suscitaram-me as lembranças de dias melhores do time do bairro das Laranjeiras e o impiedoso verão amazônico, desafio que só nós, impávidos cabocos, com bravura, ano a ano suportamos.
Para os manauaras citadinos e apreciadores do lazer praiano, não há período melhor. Praias se estendem e nesgas de areia branca surgem aos borbotões. Assim, sol e praia formam o casal perfeito para os amantes do verão. A aproveitar-se do calor e da estiagem, vários municípios realizam belos, animados, exitosos e bem frequentados festejos associados à fauna ou a flora.
Entretanto, o que os aficionados banhistas não veem, além da alvura das areias, são as comunidades ribeirinhas isoladas, situadas às margens dos lagos, paranás e “furos” que interligam lagos a rios. Sem estradas de terra e completamente dependentes da navegação fluvial, perdem boa parte de sua produção, resultante da agricultura familiar, impossibilitados que ficam de comercializa-la. A falta de água potável e alimentação, a mortandade de peixes e o encalhamento de grandes barcos nos bancos de areia, transformam o cenário e a vida do homem amazônico. No alto Rio Negro, majestoso rio que banha a nossa cidade, uma peculiaridade: o afloramento de grandes blocos de pedra, a desaconselhar navegação noturna; no Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, um alerta: a falta de gols poderá ser o carimbo do passaporte do Flu, rumo a segunda divisão.
O ciclo das águas comanda, governa e determina os períodos de abundância e escassez de alimentos na vida do homem amazônico. O fenômeno é monitorado – cotas mínimas e máximas do sistema Negro/Solimões/Amazonas – pela CPRM/Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, há mais de cem anos. É esse Serviço Geológico do Brasil que envia à imprensa e às autoridades (Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, governos estadual e municipal), a evolução do processo de subida e descida dos rios, para que medidas possam ser tomadas a fim de mitigar os inevitáveis prejuízos econômicos, sociais e ambientais, especialmente à população ribeirinha.
De todas as vazantes monitoradas desde 15 de setembro de 1902, a de 2010 foi a que mais transtorno causou. E nem poderia ser diferente, em 24 de outubro daquele ano, a régua de leitura com a qual se mede o nível d’água do rio Negro, localizada na estação do Roadway, no Porto de Manaus, registrou a cota mínima de 13,63m, o mais baixo valor mínimo da história do rio Negro, a superar o recorde da vazante de 1963 (13,64m). Se de um lado a estiagem de 2010 atingiu o seu mais baixo nível, de outro, dois meses depois, o Flu atingia o seu mais alto nível, ao sagrar-se campeão brasileiro de futebol. Quanta diferença!
O processo de vazante em Manaus tem um tempo médio de descida das águas de aproximadamente quatro a cinco meses. No ano hidrológico 2009/2010, foi acompanhado durante 133 dias (junho/outubro), o equivalente a aproximadamente 36% do ano civil. Do Relatório da Vazante 2010 da CPRM, extraio: “As vazantes e cheias que ocorrem na orla de Manaus e seu entorno são regidas, em sua maior parte, pelo volume d’água do Rio Solimões, que provoca o represamento das águas do Rio Negro na região denominada Encontro das Águas, determinando assim a magnitude dos eventos extremos no Rio Negro em Manaus”.
Naquele tenebroso evento, aproximadamente 62 mil famílias, em pelo menos 40 dos 62 municípios do estado, sofreram prejuízos com falta de mantimentos, água potável e transporte de passageiros, medicamentos e combustíveis. A paisagem fluvial de Manaus mudou com o desnudar de toneladas de lixo doméstico – garrafas pet, latas, vidros etc. -, em todos os igarapés que irrigam a cidade. Além disso, vieram as doenças trazidas por ratos e animais peçonhentos (cobras, aranhas e escorpião). As denominadas “doenças da vazante” – hepatites A e E, leptospirose, febre tifoide, verminoses, gastroenterites, dermatites (doenças de pele), conjuntivites e doenças diarreicas – exigiram da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), um enorme esforço preventivo. Também houve ocorrências de casos de malária na área rural de Manaus.
De volta para o dia 28 de novembro, a chuva passou, o jogo acabou e o meu Flu foi novamente humilhado. A seca de gols aumentou de sete para oito jogos, agora são 762 minutos, quase treze horas sem fazer um golzinho sequer. Oxalá a estiagem dos nossos rios seja menos impiedosa com os ribeirinhos em 2019! Tomara que a seca de gols do tricolor acabe domingo!
Que o ano termine para o time do meu coração, como começou o inverno amazônico, chuva em abundância (de gols a favor, é claro). Amém!

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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