Crônica 5 meses atrás

VOLVER A LOS DIECISIETE

Hoje o aquecimento global tornou o uso de ar condicionado obrigatório; há conferências e aulas virtuais e sistema operacional Iphone e Android, mas nada a ver com o Androido, um cara do Bairro do Céu de nome André, que tinha a fama de ser doido.

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Em 1973, não tinha loja de conveniência, telefone celular, internet e tampouco redes sociais. Não havia tamanha oferta de bares, de meninas, de festas, de shows. Só os bacanas tinham carros, taxi era artigo de luxo e Uber era o apelido do Uberlindo, um pernambucano porreta que desde que se mirou num espelho, soube que a segunda parte do seu nome só pertencia à certidão de nascimento. O danado era mais feio que a política nacional.

A “mina” que fosse flagrada beijando em mais de uma boca na mesma festa, era logo rotulada de “galinha” e passava a ser olhada meio que atravessada. As que “transavam” eram todas conhecidas e as de programa também. Elas eram meninas avançadas para a época, quem sabe visionárias, a verdade é que a maioria delas “se deu bem”, tanto as “galinhas” quanto as que “transavam”. Destino igual tiveram as namoradas que “davam” para os seus namorados. Já as pudicas… Bem, a maior parcela delas até casou, contudo, talvez pela falta de “prática”, descasou.

O grande diferencial daquela geração em cotejo com a geração atual era o exercício da arte da paquera, da conquista, da troca de olhares, da demora da ocorrência do primeiro beijo, da primeira bolinada, do lento processo evolutivo das chamadas “mãos bobas”. Porreta era quando o casal estava num banco de praça, no escurinho de uma esquina qualquer ou dentro de um carro e, subitamente, assim que a moça percebia a aproximação de um “guarda noturno”, de pronto dizia: “lá vem o guarda, guarda”.

Não tinha caixa eletrônico nem Shopping Centers; ar condicionado só de janela e em casa de rico; a TV só exibia programas repetidos, em preto e branco e ainda assim a gente assistia, quantas vezes repeti os diálogos do Cabo Rusty, da série Rin-tin-tin, Jim das Selvas, Johnny Quest… Nas salas de aula tinha, no máximo, um ventilador de teto para uma turma de 35 a 45 alunos, o calor ainda era suportável. Hoje o aquecimento global tornou o uso de ar condicionado obrigatório; há  conferências e aulas virtuais e sistema operacional Iphone e Android, mas nada a ver com o Androido, um cara do Bairro do Céu de nome André, que tinha a fama de ser doido.

Claro que hoje tenho muitos amigos virtuais, evidentemente não os conheço como aos amigos reais, mas sempre que me é oportunizado, encontro-os pessoalmente. Não raro surpreendem positivamente. Tem um muito cortês, até me presenteou com um Ipod. Quando recebi e agradeci o regalo, não tive como evitar a lembrança de um camaradinha do Colégio Brasileiro, que se gabava ter “transado” todas as “minas” do seu bairro, claro que era um mitomaníaco. Por conta da pavulagem ganhou o apelido de “Aí f…”.  

Não há hipótese de relacionar todos os meus amigos reais, são muitos, que benção! Amizades construídas no bairro onde eu cresci; na rua em que morei, nas peladas de futebol, no jardim de infância, nos curso primário, secundário e faculdade e também nos ambientes de trabalho. Quando comparo o meu circulo de amizade com os dos meus filhos, parece que a Manaus de los diecisiete, era mais populosa que a deles. Mas a gente sabe que não é isso, a deles é a geração dos condomínios, do medo, da desconfiança; geração que não frequenta a casa do amigo porque não há amigo, nem confidencia, nem empatia; é a geração da concorrência, da pressa, da indiferença. Indiferente eu fiquei quando a telefonia celular chegou. E eu lá podia supor que essa geringonça viria pra ficar e escravizar! Não comprei na primeira leva, a de prefixo 981, mas cometi o luxo de cometer uma compra “supérflua” na segunda leva e adquiri a linha de prefixo 982. Juntando um pouco de conservadorismo e uma porção de fidelidade, continuo com a mesma até hoje.

Não sei se a sociologia e a antropologia me auxiliariam nessa questão, mas como explicar quando, passados 40 anos, eu encontro com um colega da minha rua ou do tempo em que era estudante e o chamo pelo apelido, desconsiderando o seu status social, e dele recebo resposta igual, sem frescura, trauma ou ressentimento? A sociedade de hoje por pouco ou quase nada se melindra, pede retratação, indenização, prisão… Égua! Em 1973, retratação ocorria durante uma aula chata e interminável, quando o “desenhista” da turma fazia e repassava o retrato caricato do professor, aquilo era uma reação, uma retrato+ação; indenização, por sua vez, era ação judicial por dano, hoje banalizou ou virou “chico-espertismo”, como diria o nosso colega de Blog, o Sô Cutruco; e, finalmente, prisão, bem, essa só de ventre.

“Volver a los diecisiete, después de vivir un siglo, es como descifrar signos, sin ser sabio competente, volver a ser de repente, tan frágil como un segundo, Volver a sentir profundo, como un niño frente a Dios, eso es lo que siento yo, en este instante fecundo” […]

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sobre

Lucio
Bezerra

Manauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta Terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, sonhador e eterno aprendiz.

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